Educação à distância - futuro quase presente.

Publicado por Conteudoescola - autor Francisco Valente em 22/07/2004 às 11h21

Quando se fala em "educação à distância", nos vem à mente, de imediato, cursos e aulas ministrados por meio da transmissão de satélites, captados por antenas e retransmitidos pela televisão, ou ministrados pela internet. Isso se deve, certamente, ao enorme impacto que os meios de telecomunicação têm causado na sociedade atual, impondo modos, costumes e estilos de vida diversos, diferentes e sujeitos a constantes mudanças.

Na verdade, a educação à distância começou com o correio - cursos por correspondência - já no SÉCULO XVIII, o que é documentado pela Gazeta de Boston (Massachussets, Estados Unidos), com o anúncio, em 1728, do professor de taquigrafia Caleb Philipps, oferecendo "cursos com material enviado semanalmente, para quaisquer pessoas que vivam longe de Boston".

Em 1856, cria-se a primeira escola oficializada de línguas por correspondência, em Berlin, na então Prússia, hoje Alemanha. Outras iniciativas se sucedem nos Estados Unidos, em 1891 (International Correspondence Institut, Scrantton, Pensylvania; em 1892, a Divisão de ensino por Correspondência no Departamento de Extensão da Universidade de Chicago; os cursos de Wolsey Hall, Universidade de Oxford, 1894/1895; e os cursos do Instituto Hermond, na Suécia, em 1898.

A partir do início do século XX, a Educação à Distância - EaD, se amplia, através da utilização do correio, depois do rádio, até chegarmos aos meios de comunicação - caracterizados pela instantaneidade - telefônicos e televisivos.

Em 1984, pesquisa publicada por Lord Perry, nos Estados Unidos, a partir de questionário enviado a estabelecimentos de ensino dedicados à EaD, mesmo que não totalmente respondidos, nos davam conta de que:

- mais de 80 países mantinham cursos de EaD;
- mais de 2 milhões de estudantes estavam inscritos;
- havia, registrados, 696 programas educacionais, em 26 idiomas;
- havia programas de educação à distância em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino, da educação permanente à comunitária.

A Educação à Distância pode ser conceituada como uma modalidade de ensino caracterizado (Garcia Aretio):

- como um sistema tecnológico de comunicação massivo e bi-direcional;
- utilizada como estratégia preferencial de ensino, em substituição ao ensino presencial e a interação professor-aluno em salas de aula comuns;
- pela ação sistemática e conjunta de:
a) recursos didáticos específicos, e
b) apoio de uma organização tutorial,
- propiciando a apredizagem autônoma do estudante.

A Educação à Distância é, portanto, "uma modalidade de realizar o processo educacional quando, não ocorrendo - no todo ou em parte - o encontro presencial do educador e do educando, promove-se a comunicação educativa através de meios capazes de suprir a distância que os separa fisicamente" (LOBO NETO, Francisco José da Silveira, 1998).

O Decreto Federal 2.494/98, regulamentando o Art. 80 da LDB 9.394/96, conceitua a Educação à Distância como:

" - uma forma de ensino que possibilita a auto-aprendizagem;
- com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados;
- apresentados em diferentes suportes de informação;
- utilizados isoladamente ou combinados;
- e veiculados por diversos meios de comunicação".

No Brasil, cursos por correspondência de formação de técnicos em rádio e televisão - do Instituto Monitor e do Instituto Universal Brasileiro - faziam companhia, já nos anos 40, a alunos solitários nos lugares mais distantes do país.

Foram responsáveis pela difusão, não apenas de técnicas de reparo, mas também a de montagem (e venda) de equipamentos - rádios, TVs e fonógrafos.

 

Em função disso, podemos creditar a essas iniciativas:

- A difusão do conhecimento a respeito de eletricidade e eletrônica em todo o país;

- A popularização do uso do rádio (e depois, da TV) como veículo de difusão de informações (a "Voz do Brasil", programa federal criado no governo Vargas) e entretenimento;

- A integração cultural do país, na medida em que o rádio e a televisão puderam chegar à maioria dos lares, levando seus conteúdos - muitas vezes da pior qualidade -, mas levando, também, a língua portuguesa e os valores nacionais.

O desenvolvimento da eletrônica no final dos anos 50 possibilitou a miniaturização do rádio - agora já funcionando com transistores e pilhas - e com isso, a sua efetiva consolidação como meio de comunicação.

Nos anos sessenta surgiram as primeiras iniciativas oficiais em levar, a todos os cantos do país, cursos em alfabetização voltados para adultos, além de programas educacionais e outros (de propaganda oficial da ditadura militar), utilizando, para isso, a radiodifusão.

Vários projetos e programas surgiram, a maioria com pouco sucesso - o que pode ser explicado pelas dificuldades de interatividade oferecidas pelo rádio (e até pela televisão) - com programas monótonos e pouco estimulantes, além da falta de traquejo técnico para a elaboração de produtos educacionais que suprissem essas dificuldades.

Mesmo assim, iniciativas oficiais e privadas se multiplicaram e chegamos aos anos noventa com uma diversidade de oferta de cursos utilizando fitas de vídeo ou televisão, com imagens captadas via satélite por antenas instaladas em escolas, centros sociais e repartições públicas.

Bonitos, bem apresentados, mas - eficazes? O fantasma da falta de interatividade continuou assombrando a adesão e qualidade dos projetos educacionais elaborados para o ensino à distância.

 

Esse percalço, em particular, vem sendo contornado, já há alguns anos, pela utilização da comunicação por meio da internet - a rede mundial de computadores, conectados através de linhas telefônicas.

Com a possibilidade instantânea de comunicar, receber e enviar textos, imagens e sons - ou seja, com uma enorme capacidade interativa - a internet tornou-se a mídia ideal para a consecução de projetos e programas de educação, em todos os níveis, modalidades e etapas do ensino regular, além de outros, de extensão e especialização em temas e conteúdos pontuais, até os níveis de graduação e pós-graduação.

A legislação que regula a matéria (cursos à distância com a utilização de meios de comunicação telefônica e televisiva), antes acanhada, vem ganhando subsídios para se adequar à demanda e às expectativas da clientela potencial, contada em centenas de milhares de pessoas.

Modalidades atuais de ensino à distância no Brasil

Hoje o Brasil conta com projetos e programas de educação e difusão cultural tendo como meio de consecução:

- a radiodifusão;
- a fita cassete, utilizada geralmente como elemento de apoio;
- a televisão, utilizando transmissões via satélite;
- a televisão, acoplada a equipamentos de reprodução de fitas de vídeo e de CDs, utilizados também como elementos de apoio;
- material impresso (manuais, apostilas) enviadas pelo correio, como apoio aos cursos por rádio, fita cassete, de vídeo/CDs ou televisivos via satélite;
- a internet, por meio de Sites oficiais ou de organizações privadas;

 

Cursos oferecidos

Há, atualmente, oferta de cursos regulares (passíveis de certificação):

- de educação de jovens e adultos - de alfabetização, Ensino fundamental e Ensino Médio;
- de graduação em várias áreas do ensino superior;
- de pós-graduação "latu sensu";
- de extensão e de especialização , em programas pontuais ou específicos;
- cursos de idiomas;
- de formação de atitudes para o trabalho; e
- cursos técnicos de profissionalização.

Muitos Sites de internet oferecem cursos pontuais, de curta duração, abrangendo assuntos de ordem profissional, na maioria dos casos e destinados, geralmente, à atualização.

Em todos eles, duas características:

- a necessidade de envolvimento e empenho do aluno para vencer o currículo proposto, dar consecução às tarefas e participar das avaliações;

- o preço dos cursos, geralmente muito caros, enfraquecendo a proposta de democratização da internet como instrumento de difusão educacional e cultural.

Mesmo os estabelecimentos oficiais de ensino - como as universidades públicas - oferecem cursos pagos (e caros) - geralmente ministrados por seus institutos.

Caso expressivo é o da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo, criada para o desenvolvimento da educação e cultura por meio da Informática e que oferecia, até algum tempo atrás, cursos de formação em Informática aplicada à educação, em parte presenciais (no Centro Cultural Maria Antônia) e em parte pela internet, com preços fora do alcance de qualquer professor de escola pública ou particular. Independentemente da alta qualidade dos cursos, trata-se de produtos impossíveis de serem consumidos pela clientela que mais necessita deles.

 

Essa política de cursos a preços estratosféricos - de R$ 700,00 a R$1.500,00 para cursos de curta duração - também é vigente entre os canais privados de Internet, mas, como o cliente potencial é funcionário de empresas, estas absorvem o custo com mais facilidade.

A primeira impressão que se tem é de ganância e mesquinharia - cobrar muito por um produto novo e cobiçado no mercado; na verdade, o que está por detrás disso é a falta de pessoal técnico capacitado para a elaboração de cursos nas linguagens de Internet, especialistas nas diversas áreas e com conhecimento de recursos para educação à distância, webdisigners e webmasters capazes assumir as empreitadas de criação e desenvolvimento.

Apesar desses entraves (todos circunstanciais) de falta de pessoal capacitado, reduzido poder aquisitivo por parte da clientela-alvo, baixo número de brasileiros que têm acesso a computadores, o futuro da educação passa, necessariamente, pela televisão e pela internet e cada vez mais longe das técnicas presenciais.

E a escola, como estabelecimento físico, com administração, professores, materiais didáticos, currículos e programas - vai acabar? Acreditamos que não. Caberá a ela (mais precisamente aos sistemas de ensino) adequar-se à nova realidade e engendrar maneiras de compartilhar seus conteúdos educacionais com as novas tecnologias, encarando o professor como um orientador/mediador e incrementando a visão de que o conhecimento deve ser construído, pelos alunos, com o questionamento e a pesquisa, em projetos cooperativos e colaborativos.

Estamos no início de um grande processo de revolução na educação, que deixará de ser reprodutora dos conhecimentos desenvolvidos por equipes de governo interessadas, quase sempre, na manutenção da ideologia política dominante. Novas formas de encarar o mundo e a vida social, novas leituras do universo cultural e a prática do questionamento e da busca pela informação substantiva são os elementos a serem levados em conta na nova perspectiva pela qual o processo educativo passará a ser enxergado.

Nesse campo, as novas tecnologias educacionais e os projetos de educação à distância encontrar-se-ão irmanados. É o futuro que nos espera: um futuro quase presente.

Categoria: Diversos

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