Exclusão Social - que bicho é esse? - II

Publicado por Conteudoescola - autor Francisco Valente em 22/07/2004 às 11h14

A inclusão social perversa - trabalho e educação

No mundo capitalista, o trabalho é de importância vital para a sobrevivência física e a adequada inserção social das pessoas, repercutindo em sua saúde mental

O trabalho fornece nossa identidade social - somos aquilo que fazemos - e normalmente costuma ser a segunda pergunta que se faz a alguém que estamos conhecendo; a primeira pergunta, geralmente, é: "como você se chama?" (identidade pessoal); e a segunda é: "o que você faz? (identidade social).

Apesar da alardeada "igualdade de oportunidades" do capitalismo, sabemos ser a sociedade (como afirmava nosso caro Émile Durkheim, no início do século XX, falando sobre educação) que define as posições ("status") e os papéis, inclusive profissionais, que as pessoas ocupam e desempenham em seu meio.

Assim, o corpo da sociedade, por meio das instituições, estabelece as posições das pessoas na sociedade - em termos profissionais, econômicos, culturais - o que repercute no desempenho dos papéis sociais, tendo a educação como mediadora desse processo.

Falemos mais claro: por mais que haja vagas ou oportunidades para se fazer um curso de medicina/odontologia/engenharia (ou outros, de grande exigência de tempo e dispêndio financeiro) só poderão cursá-los, no Brasil, aqueles que:

- tiverem condições econômicas para isso (custeio de mensalidades, livros, materiais, disponibilidade de tempo integral);

- e os que tiveram uma educação básica de bom nível (garantindo o ingresso numa escola superior de qualidade, geralmente pública e gratuita) o que acontece, preferentemente, no Brasil, àqueles que cursam boas (e caras) escolas particulares.

Vocação, potencialidade, realização profissional e de vida, tornam-se fatores secundários quando o peso da sociedade redireciona carreiras em função da disponibilidade (ou não) de renda das pessoas.

 

 

Essa possibilidade questionável de se alcançar um nível econômico/social razoável por meio da boa formação educativa - desde que haja recursos para isso, é claro - caracteriza um dos aspectos da inclusão social perversa.

Podemos definir a inclusão social perversa como uma situação de inclusão, mas em condições tão desfavoráveis ou acarretando tanto sofrimento físico ou psicológico aos sujeitos que ela pouco difere da condição de exclusão social. É a cidadania pela metade - a metade dos deveres, faltando a parte de usufruto pleno dos direitos constitucionais.

Assim estão as pessoas ou grupos sociais:

- sem acesso à boa educação, mas com acesso a cursos de segunda categoria;

- que têm emprego, mas são explorados por seus patrões ou ganham muito pouco pelo trabalho exercido;

- que trabalham em condições ambientais inadequadas;

- aqueles que têm trabalho, mas não têm emprego;

- os que têm assistência médica garantida, mas são mal atendidos pelos serviços de saúde públicos ou pelos planos de saúde;

- aqueles aos quais a Constituição de 88 garante segurança pública, saúde preventiva e curativa, educação, oportunidades de trabalho e emprego mas, na prática, são privados desses direitos;

- de modo geral, que têm acesso restrito ao universo de consumo de bens materiais e serviços.

 

 

Exclusão social e inclusão social perversa parecem ser gradações - tonalidades diferenciadas - da mesma coloração: a desigualdade social, situação que marca a história da humanidade e que foi adotada, como marca registrada, pela sociedade global e "pós-moderna".

Uma das expressões do sofrimento físico, moral, psicológico ocasionado pela inclusão social perversa é a síndrome de desistência profissional -"burn-out".

Corresponde a um estado físico, psicológico e social (atuando juntos ou separados) de redução da capacidade de trabalho, perda da auto-estima, diminuição da resistência a doenças, perda de interesse pela vida e pelas atividades profissionais.

É o estado " de quem ainda está lá, já desistiu mas continua em seu trabalho, numa relação ambígua de querer/não-querer, amor/ódio, gratificação/frustração".

Em termos psíquicos, confunde-se com estados distímicos ou depressivos, já que apresenta semelhança de sintomas; e é uma reação humana às condições desfavoráveis de vida, comparável ao desemprego persistente ou à perda de entes queridos.

"Burn-out" - uma das expressões da inclusão social perversa

Em termos de desempenho profissional, a inclusão social perversa se faz presente, por exemplo, no "burn-out" - síndrome de desistência profissional; 
Contamina, em pesquisa publicada em 1999, 48% dos professores de escola pública no Brasil.

E não faltam razões para isso: má formação técnica, salários insuficientes, locais de trabalho inadequados, violência, carga de trabalho muito acima de 8 horas diárias ("...é preciso enfrentar 3 períodos de aula para sobreviver..."), falta de projeto para o futuro e, muitas vezes, a responsabilização pela má qualidade do ensino e pelo fracasso escolar.

Em síntese, o "burn-out" se dá, no professorado brasileiro, pelas más condições físicas, institucionais e técnicas para a consecução do trabalho educativo.

O psicólogo Wanderley Codo, em seu livro (organizador) Educação: Trabalho e Carinho, prevê a possibilidade de falência do ensino público brasileiro se o problema da síndrome da desistência profissional, entre educadores, não for equacionada (ou atenuada) pelo poder público, através da melhoria das condições do sistema educacional.

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Leia Mais:

- Codo, Wanderley - Educação: Carinho e Trabalho - Petrópolis, RJ:Vozes/Brasília:CNTE:UnB, 1999.

- Bader, Sawaia - As Artimanhas da Exclusão - Petrópolis - RJ:Vozes, 1999.

Categoria: Diversos

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