Paulo Freire Não Morreu.

Publicado por Conteudoescola - autoria equipe Conteudoescola em 22/07/2004 às 11h12

Maio de 2003 marcou seis anos do passamento do educador Paulo Freire. Nossa convicção é que o mestre está mais vivo do que nunca, ativo, fazendo ecoar por todos os cantos da pedagogia brasileira sua energia de homem simples, surgido pequeno professor num lugar distante no mapa da modernidade, tornado gigante frente as injustiças e desigualdades de nosso país.
"Não existem ignorantes. Existem aqueles que não foram à escola, mas que têm um saber a partir de seu cotidiano"

Essas palavras, de Paulo Freire, sempre me marcaram, não só pela simplicidade como pela imensa variedade de conceitos contidos nelas.

Conceitos que se tornaram moda, anos depois, no Brasil, através da fala de Jean Piaget, defendendo para cada sujeito a capacidade de aprender, se fosse respeitado o seu momento - único e pessoal - de aprendizagem; e que o conhecimento - este se constrói, a partir dos conteúdos já incorporado pelo educando.

Antes de Perrenoud virar modismo no Brasil - sempre novidadeiro de estrangeirismos - o Paulo Freire caboclo já falava em "saber" (o conhecimento) e "saber fazer" (as habilidades), tornados depois descoberta última e rebatizados de "competências e habilidades" , nomenclatura proclamada aos quatro ventos nos ambientes pedagógicos como o mais atual em termos de conceito teórico.

E outros conceitos mais de nosso grande mestre: o saber pensar, o pensar certo, o saber fazer pedagógico - formas simples de dizer o que hoje já está incorporado ao dia a dia do professor consciente, compromissado e responsável: é necessário partir do universo conceitual do aluno, de sua biografia, de ter respeito por ele/ela, e a necessidade de conhecer o aluno - seus potenciais, suas expectativas, limitações, potenciais, até seus sonhos; e se não tiver sonhos, ensiná-lo a sonhar.

 

 

Paulo Freire nunca nos deixou - está conosco em suas obras pedagógicas - na forma de livros e na forma do exemplo de seus atos. Seu trabalho revolucionou a educação de adultos - área de recentíssima preocupação dos nossos governantes - e seu método de alfabetização - o método global - tornou-se modelo para qualquer referência de trabalhos pedagógicos que levem em conta a transformação social do ser humano, em termos de ganho de consciência social e de autonomia pessoal.

É até jocoso citar - nos anos cinzentos da ditadura militar iniciada em 1964 - o MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização - organização educativa encenada pelos militares para chamar a atenção do mundo para um Brasil que se queria desenvolvimentista e modernizado (na verdade, um grande jogo de cena para justificar a contratação, por fortunas incalculáveis, de material didático elaborado em escala industrial por fábricas de papel colorido auto-intuladas "editoras de material pedagógico") - utilizava, em campo, o método global, de Paulo Freire, como instrumental para a alfabetização de adultos.

"O método é do Paulo Freire, claro...só não se pode dizer o nome dele"...justificava, meio ressabiada, a equipe montada pelo então Ministro da Educação Coronel Jarbas Passarinho. Enquanto isso, Paulo Freire acumulava seus 15 anos de exílio fora do país, encantando a todos com a objetividade de suas concepções e seu modo simples de ser.

Como escritor, deixou marca - 37 títulos editados em 76 anos de vida; como pessoa, deixou marca - a marca do exemplo, da vida onde a coerência entre o pensar e o fazer sempre foi prática cotidiana, não um conceito teórico a ser passado em livros, palestras ou conferências.

O Paulo Freire que temos guardado, nos ensinamentos que seus livros nos passaram, nos exemplos marcados por seu comportamento enquanto educador - guerreiro e gentil ao mesmo tempo ( "saber fazer é dialógico, não é enfrentamento" ) - está vivo, atuante, lembrado em cada aula, em cada passagem onde surja o tema da inclusão social - tão atual no momento - e do qual o mestre Freire, se não foi o inventor, foi o pioneiro.

 

 

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, Pernambuco, em 19 de setembro de 1921 e faleceu em São Paulo, em 2 maio de 1997. Conhecido como o maior educador brasileiro e um dos maiores educadores de todo o mundo, deixou entre nós uma marca indelével como pessoa, como mestre, como pedagogo e como político. Iniciou sua carreira de professor em Pernambuco, aos 21 anos e daí não parou mais - nem de ensinar, nem de escrever. Sua primeira obra - Educação: Prática de liberdade (1967) guarda coerência até os dias de hoje, mostrando-se inspiradora e atual. Outros de seus livros marcaram o ambiente pedagógico brasileiro e mundial: A Pedagogia do Oprimido (1968), Cartas à Guiné-Bissau (1975), Pedagogia da Esperança (1992), À Sombra desta Mangueira (1995), Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa (1997).

Enquanto Professor, iniciada sua carreira aos 21 anos, deu continuidade a ela lecionando em Genebra, Suíça e Harvard, Inglaterra (no período de exílio) e São Paulo , na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP) e Na Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.

Foi doutor e Livre Docente de História e Filosofia da Educação da Universidade do Recife, da qual foi exonerado, em 1964, por ato da ditadura militar, partindo para o exílio.

Foi ainda Secretario da Educação da Prefeitura de São Paulo no período entre 1989 e 1992.

Pedagogia da Autonomia, seu último livro, de 1997, tem caráter doutrinário e aborda a questão da formação docente ao lado da reflexão sobre a prática educativa progressivista em favor dos educandos, analisando os saberes fundamentais à prática docente.

Nele, Paulo Freire fala sobre o "saber", o "saber fazer" e o "saber fazer pedagógico" e faz um paralelo entre a capacidade técnico-científica que todo professor precisa dominar e o amor necessário à prática do educar.

Tece críticas, também, à globalização e à degradação da dignidade humana que esse processo nos traz, além de advertir o educador para a necessidade do exercício de uma ação pedagógica permeável a mudanças.

 

 

Organizadas em 3 eixos, suas idéias principais podem assim pode ser resumidas:

I - Não há docência sem discência (não há ensino sem aprendizado...não há professor sem aluno).

- Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou construção.

- Somente quem "pensa certo" é que pode ensinar a pensar certo: o educador que "pensa certo" transmite aos alunos que "o estar no mundo", enquanto seres históricos, é ter a capacidade de intervir, de conhecer, de problematizar, de construir e de transformar.

- " Pensar certo" implica em respeito à bagagem cultural do aluno, aos seus saberes construídos na prática comunitária e que devem ser associados às disciplinas e conteúdos escolares (deve-se partir sempre da realidade do aluno).

- Não há o "pensar certo" sem o apego ao rigor metodológico; ensinar, aprender e pesquisar lidam com dois momentos do ciclo do conhecimento:

- sobre o que se ensina e se aprende do conhecimento já existente (nossa herança cultural); e

- sobre o que se trabalha em termos da produção de conhecimentos ainda não existentes.

- A grande tarefa da prática educativa progressivista é promover, junto ao aluno, a passagem do conhecimento baseado no senso comum (curiosidade ingênua) para o conhecimento científico, na curiosidade crítica, indagadora, sempre insatisfeita.

- Educar é, substantivamente, formar - e a isso devemos vincular noções éticas (valores morais) e estéticas.


II - Ensinar não é transferir conhecimento (mas, sim, criar condições para a elaboração ou reconstrução dos saberes).

- Tais saberes precisam ser aprendidos por educadores e educandos em todas as dimensões: ontológica, política, ética, estética, epistemológica e pedagógica - precisam ser testemunhados e vividos, devendo fundar-se na prática cotidiana e não em teorias.

- Ensinar exige a consciência do inacabamento, da finitude - a predisposição à mudança, à aceitação do diferente, do não-repetir.
- Ensinar é ser gente - entendendo que por mais adversas sejam as condições materiais, econômicas e sociais no momento presente, elas não são eternas, exigindo sua superação para o cumprimento de nossa tarefa histórica de "estar no mundo".

- Ensinar exige respeito à autonomia e à dignidade de cada um, é um imperativo ético - não um favor que podemos ou não conceder aos nossos semelhantes.

- O desrespeito à curiosidade do educando e á sua biografia, suas inquietudes, sua linguagem, constituem em transgressão; e, para Paulo Freire, essa transgressão é uma forma de ruptura com a decência.

- Transgressões também constituem todas as formas de discriminação.

- O educador que "pensa certo" e "sabe fazer" deixa clara a diferença entre autoridade e autoritarismo e entre liberdade e licenciosidade.

- A existência de limites é necessária na educação democrática e o professor os impõem na medida em que os alunos percebem, em suas atitudes, a capacidade de ensinar, o compromisso e a responsabilidade para com o ensino.

- A boa prática educativa deve ser precedida pelo conhecimento dos alunos, suas capacidades, limitações, necessidades e expectativas, assim como de suas famílias e da comunidade em que vivem.

- Ensinar exige humildade, tolerância, e permanente curiosidade além da convicção de que as mudança (social, econômica, política) são possíveis.

III - ensinar é uma especificidade humana - exige segurança, competência profissional e generosidade.

- A prática educativa é uma forma de intervenção no mundo e essa intervenção vai além do conhecimento de conteúdos (conhecimentos pré-existentes), implicando num esforço de transformação da realidade.

- A prática do educar exige definição, tomadas de posição, de decisões, de escolhas e rupturas.

- A Pedagogia da Autonomia está centrada em experiências estimuladoras de decisões, escolhas, rupturas, compromissos e responsabilidades.

 

 

Veja mais sobre Paulo Freire na Internet

Instituto Paulo Freire
www.paulofreire.org/

O Legado de Paulo Freire
www.ppbr.com/ipf/legado.html

A Trajetória de Paulo Freire (narrado por sua esposa)
www.ppbr.com/ipf/bio/esposa/html

Paulo Freire
www.centrorefeducacional.com.br/paulo.html

Categoria: Diversos

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