Transgressão e Mudança na Educação os projetos de trabalho.

Publicado por Conteúdo Escola em 22/07/2004 às 09h54

Hernández, Fernando - Transgressão e Mudança na Educação os projetos de trabalho; trad. Jussara Haubert Rodrigues - Porto Alegre: ArtMed, 1998.


Este livro é um convite à transgressão das barreiras que impedem o indivíduo de pensar por si mesmo, de construir uma nova relação educativa baseada na colaboração em sala de aula, na escola e com a comunidade.

É um convite a soltar a imaginação, a paixão e o risco para explorar novos caminhos que permitam que as escolas deixem de ser formadas por compartimentos fechados, horários fragmentados, arquipélagos de docentes e passem a converter-se uma comunidade de aprendizagem, onde a paixão pelo conhecimento seja o objetivo e a educação voltada para a cidadania, o horizonte ao qual se dirigir.

Parte do fato de ser o professor um agente de mudança, olhando sempre para o futuro, no afã de educar alunos (e não para o passado) e dessa maneira, transgredindo, muitas vezes, regras e normas estabelecidas.

O educador é, portanto, um transgressor do que existe, pronto, acabado, constituído e passado. Por acompanhar a dinâmica da sociedade, inova em termos de atitudes e comportamentos, tendendo à mudança de mentalidades, a par do questionamento sempre presente e base - assim como a atividade de pesquisa - para a construção do conhecimento.

Apresenta, primeiramente, seis situações de transgressão, ou intenção de mudança, com as quais lança as bases da linha de raciocínio que desenvolve no texto:

Primeira: quanto ao domínio da psicologia instrucional que esteve, em sua história, vinculada setores educacionais militares norte-americanos, cuja prática reduz a complexidade da instituição escolar a pacotes de conceitos, procedimentos, atitudes e valores, fazendo acreditar que seja a única (e a melhor) forma de organizar e planejar o ensino escolar.

 

Segunda: quanto à visão da aprendizagem vinculada ao desenvolvimento e conhecida como construtivismo. Essa transgressão não é contra o construtivismo, mas sim contra a interpretação que reduz e simplifica alguns aspectos da aprendizagem. O construtivismo pouco ou nada diz sobre os intercâmbios simbólicos que se representam na sala de aula, sobre as construções sociais que o ensino intermedeia, sobre os valores que o professor promove ou exclui, sobre a construção das identidades, as relações de poder existentes na escola, o papel dos afetos, enfim, tudo o que corresponde ao âmbito social.

Terceira: em relação à visão do currículo escolar centrado nas disciplinas, entendidas como fragmentos empacotados em compartimentos fechados, oferecidos aos alunos sob formas de conhecimento que muito pouco ou nada tem a ver com suas vidas, necessidades e interesses.

Quarta: em relação à Escola que transfere para o futuro a sua responsabilidade em formar os educandos, encarando ser a finalidade da infância chegar à idade adulta e desconsiderando-a como um período particular, específico e rico em experiências e descobertas fundamentais. Transgressão contra as Escolas que impedem que os alunos se construam como sujeitos em cada época de sua vida.

Quinta: quanto à perda da autonomia no discurso dos docentes, à desvalorização de seus conhecimentos e à sua substituição por discursos psicológicos, antropológicos ou sociológicos que pouco respondem ao que acontece no cotidiano da Escola.

Sexta e última: em relação á incapacidade da Escola para repensar-se de maneira permanente, dialogar com as transformações que acontecem na sociedade, nos alunos e na própria educação.

Parte, em seguida, para falar sobre o ensino com pesquisa e projetos, a pesquisa transdisciplinar (feita com equipes multi/transdisciplares) e com objetivos não-lineares.
Estabelece um quadro de diferenças entre a forma de trabalho disciplinar (tradicional, fechada, linear) e a transdisciplinar (inovadora, aberta, radial).

 

DIFERENÇA ENTRE CURRÍCULOS

DISCIPLINAR

Centrado nas matérias

Conceitos disciplinares

Objetivo e metas curriculares

Conhecimento canônico ou estandardizado

Unidades centradas em conceitos disciplinares

Lição - textos

Estudo individual

Centrado na Escola

Conhecimento tem sentido por si mesmo

Avaliação mediante provas

O professor como especialista

TRANSDISCIPLINAR

Problemas transdisciplinares

Temas ou problemas

Perguntas, pesquisa

Conhecimento construído

Unidades centradas em temas ou problemas

Projetos

Grupos pequenos que trabalham por projetos

Fontes diversas

Centrado no mundo real e na comunidade

O conhecimento em função de pesquisa

A avaliação mediante portifólios e transparências

O professor como facilitador


Ilustra o final do texto com projetos que acompanhou, na Espanha, nos últimos anos.

Tendo trabalhado no Brasil no final de 1997 em Belo Horizonte e visitado São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, Hernández é conhecedor das características, limitações e potencialidades do Brasil e de nosso sistema educacional. Dessa forma, o texto é de importância fundamental para o educador (ou o interessado em educação), preocupado com novas abordagens metodológicas que não as reduzidas ao âmbito da sala de aula e do professor reprodutor de conteúdos.

Leia também: Hernández, Fernando e Ventura, Montserrat - A Organização do Currículo por Projetos de Trabalho. 5a. Ed., Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

Categoria: Resenhas

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