Ciências Humanas

FORMAÇÃO INICIAL DOS PROFESSORES NO ENSINO SUPERIOR

Publicado em 02/03/2017 às 11h29

Resumo


O artigo traça uma análise do desenvolvimento do processo de formação de professores que tem como finalidade dar forma à ideia de uma nova licenciatura. Centra-se no exame dos documentos oficiais produzidos por representantes das Universidades (Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas e Centro Universitário Fundação Santo André), responsáveis pela educação superior e no estudo institucional realizado pelas comissões de trabalho. Este artigo discute a formação da educação básica à luz das representações sociais do ensino superior, de docentes e de alunos construídas na trajetória da escolarização brasileira. Apresenta também reflexões sobre as tendências e as vinculações que estão redefinindo a Universidade quanto a sua história, sua autonomia e a relação da sua produção de conhecimentos relativos á formação de professores.


Palavras-chave: Ensino superior, initial teacher education, policies of higher education

Abstract

This article traces an analysis of the development of the teacher education process, which aims to give shape to the idea of a new teacher education (Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas e Centro Universitário Fundação Santo André). It focuses on the examinations of the official documents produced by higher education representatives responsible and on the institutional studies accomplished by the work commissions. This article discusses basic school teacher education according to the social representation of higher education, teacher and learner, which are based on Brazilian schooling trajectory. This article introduces reflections about the tendencies and commitment that are redefining university regarding its history, autonomy and its relationship with its knowledge production this teacher education. 


Key-words: Higher education, formação inicial de professores, políticas de educação superior

 


Debatendo sobre os Cursos de Formação de Professores: As Licenciaturas 

Buscando atender às novas perspectivas e diretrizes legais para a formação de professores1 sentimos a necessidade de acompanhar de perto 3 projetos de discussão sobre as Licenciaturas nas Instituições de Ensino Superior. Acompanhamos as discussões feitas pela Comissão Permanente de Licenciaturas da Universidade de São Paulo (USP), pela Comissão organizada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)2 e pela Comissão Executiva para Elaboração de Proposta para o Projeto Pedagógico das Licenciaturas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIL) do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA).
A Resolução do Conselho Nacional de Educação CNE/CP 2/2002, de 19 de fevereiro de 2002, estabelece novas diretrizes para todos os cursos de Licenciatura no Brasil, implicando na necessidade de implementação de mudanças nestes cursos no que tange a adequação de carga horária e redistribuição de disciplinas na grade curricular. Com força de lei, ficou estabelecido que todos os cursos de licenciatura devem ter:
a) Carga didática total de no mínimo de 2.800 horas, a serem cumpridas em no mínimo 03 anos;
b) 400 horas de Estágio Supervisionado, a partir da segunda metade do curso, a serem desenvolvidas em instituição regular de ensino;
c) 400 horas de Prática de Ensino, distribuídas ao longo do curso de licenciatura;
d) 1.800 horas de conteúdos curriculares direcionados (específicos e pedagógicos) e 200 horas de outras atividades acadêmico-científico-culturais.
Optamos em trabalhar inicialmente com questões que derivam de reflexões feitas individualmente pelos docentes envolvidos diretamente na formação de professores nos cursos de licenciaturas, bem como alunos que freqüentaram esses cursos. 
Elencamos tais questões, pois elas servem como eixo para nosso objetivo principal: iniciar debates sobre a formação de professores no ensino superior, frente a um repensar das licenciaturas na atualidade:


1) Qual o perfil de professor que queremos formar?

Sabemos que as rápidas mudanças havidas na sociedade e os novos paradigmas para as ciências na atualidade apontam para um perfil de professor capaz de articular  teoria e prática, que desenvolva a pesquisa como ferramenta principal de seu ofício e que tenha condições de exercitar a reflexão de forma permanente. Esse profissional não se forma somente no ensino superior, ele já traz como estudante uma grande bagagem que poderá guiá-lo sobre como ser professor. Os cursos de Licenciatura representam uma etapa importante desse percurso formativo no sentido de colocar em revista os pressupostos que dão sustentação às  concepções dos estudantes sobre o que, por que, para que e como ensinar. Ao professor cabe ser o promotor da aprendizagem de todos os estudantes.

2. Quais concepções de conhecimento, ensino e aprendizagem estamos desenvolvendo nos Cursos de Licenciatura?

Nossas práticas pedagógicas, como professores dos Cursos de Licenciaturas, estão também embasadas em concepções (que não são neutras). A concepção mais presente se relaciona a um modelo em que ao professor cabe ensinar conteúdos e ao estudante, aprender. O histórico Esquema 3 + 1 – três anos de disciplinas de formação técnica (da área específica) mais um ano de disciplinas da formação do professor, via de regra, separando teoria e prática - já se mostrou um modelo superado, pois nem formava adequadamente o bacharel, nem o professor. 
Os atuais cursos de Licenciatura da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Centro Universitário Fundação Santo André passaram por etapas de revisão desse modelo, na maioria dos casos, diluindo ao longo dos quatro anos as disciplinas de formação do professor, sem contudo ter havido um equilíbrio quantitativo e qualitativo, nem um diálogo entre as disciplinas específicas e pedagógicas, com vistas a formar o professor para a escola básica de hoje. A estrutura curricular em forma de grade também não contribui para a integração de saberes que permanecem isolados na forma disciplinar, seguindo procedimentos de racionalidade técnica.  Alterar a estrutura curricular dos Cursos de Licenciatura significa rever  essa lógica predominante.
Na Universidade de São Paulo, como na Universidade Estadual de Campinas, predominou até 2004 a formação de professores ligada diretamente às Faculdades de Educação3, bem como as disciplinas “ditam pedagógicas”, ou seja, o lócus da prática na formação do professor nos Cursos de Licenciaturas. 
As questões que se colocam para o conhecimento, o ensino e a aprendizagem hoje são de outra natureza, o que nos leva a refletir sobre o nosso fazer pedagógico, tais como as  metodologias e as concepções de avaliação que utilizamos (entre outros aspectos). As pesquisas na área de formação de professores dão conta de que conhecer é uma forma teórica e prática de compreender a realidade, é mais do que transmitir, informar, é saber trabalhar com as informações, podendo selecioná-las,  construindo novos saberes que conduzam à produção de sentidos para o estudante. Para conhecer, o estudante coloca em relação uma determinada concepção de mundo, mobiliza capacidades, motivações e interesses e isso se realiza de forma processual. Nessa perspectiva, o ensino só se completa com o ciclo da aprendizagem.
Se o estudante vivenciar no curso de Licenciatura situações que o conduzam à produção e construção de saberes que dêem conta dos desafios colocados para o conhecimento hoje, ele terá melhores referências para desenvolver ações pedagógicas de outra qualidade com os estudantes da escola básica.

3) Qual a função da escola básica hoje?

A escola tal qual a conhecemos pouco se transformou, se comparada às mudanças que ocorreram na sociedade nas últimas décadas. O isolamento ainda caracteriza a função docente e as práticas pedagógicas inovadoras tendem a se diluir no conjunto da ação educativa escolar. 
O estudante que se forma professor e inicia sua vida profissional na escola se depara com situações cotidianas, nas quais ele necessita desenvolver um saber estratégico. A realidade vai se apresentar (para ele) de forma multifacetada, carregada de ambigüidade e de incerteza. Por outro lado, a escola é um espaço coletivo – para estudantes e professores – sendo assim, a gestão coletiva se reveste de importância na construção de identidades (da infância, do jovem e adulto, ou ainda da identidade e do desenvolvimento profissional do professor). Lembramos que a escola encontra-se enraizada em uma cultura local que necessita ser compreendida e respeitada visando garantir as manifestações, expressões e diversidades,  sendo um espaço, por excelência, para o exercício da democracia.
Identificar essas 3 questões como norteadoras do debate sobre a Formação de Professores, inclui pensar nas diferentes formas de organização do currículo para as Licenciaturas e o papel que os conteúdos específicos de cada área tem nessa nova perspectiva de Formação de Professores posta pelo MEC.




O Perfil do Professor que Necessitamos Formar na Atualidade

Nos três projetos analisados destaca-se a necessidade de mudanças na maneira com que é efetivada a formação de professores, incluindo a reestruturação dos cursos de licenciaturas. Caminha no primeiro momento contextualizando a formação atual dos professores, insuficiente para responder as novas demandas e necessidades da sociedade contemporânea.  
A Comissão Permanente de Licenciaturas da USP no Projeto de Formação de Professores – USP (documento estruturado em 4 partes complementares), discute  o perfil de professor que esta instituição vem formando e a necessidade de estabelecer um novo perfil. O tema é discutido na primeira parte do projeto denominado Princípios e Objetivos dos Cursos de Licenciaturas da USP.
A concepção de formação de professores nas licenciaturas da USP caracteriza-se em sua maioria como uma justaposição, aos bacharelados, de certas disciplinas pedagógicas e de atividades de estágio, sem continuidades e articulações entre essas diferentes etapas da formação do professor. Assim em praticamente quase todas as unidades, o diploma de bacharelado é, de fato um pré-requisito para a obtenção do título de licenciado. Nesse sentido, a formação de professores é concebida como uma superposição de dois conjuntos de conhecimentos, e que o aprendizado do saber disciplinar antecede o aprendizado do saber pedagógico.
Vamos trabalhar como exemplo o curso de licenciatura e de bacharelado em Geografia das três instituições analisadas (USP, UNICAMP e CUFSA).
A USP no caso da Geografia, oferece 80 vagas no período diurno e 80 vagas no período noturno. A entrada no vestibular obrigatoriamente se faz pela carreira do bacharelado de Geografia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), não havendo a entrada para a licenciatura oferecida na Faculdade de Educação (FE).
Já a Licenciatura de Geografia na UNICAMP está vinculada ao Curso de Ciências da Terra, que compreende as modalidades de bacharelado em Geologia e Geografia, no período diurno, e licenciatura em Geografia, no período noturno.
A estrutura curricular consiste em um núcleo comum inicial de disciplinas, nos três primeiros semestres (diurno) ou nos quatro primeiros semestres (noturno), e de disciplinas específicas, conforme a modalidade escolhida, nos demais semestres. Implantado em 1998, o curso atualmente dispõe de 40 vagas no diurno e 30 vagas no noturno e é de responsabilidade do Instituto de Geociências que, por meio dos seus quatro Departamentos (Departamento de Geografia, Departamento de Geologia e Recursos Naturais, Departamento de Geociências Aplicada ao Ensino e Departamento de Políticas Científicas e Tecnológicas), ministra a quase totalidade das atividades didáticas. Tendo uma proposta multidisciplinar no núcleo comum, há no curso de graduação disciplinas que são oferecidas por outras unidades da Unicamp, sobretudo a Faculdade de Educação (FE), o Instituto de Matemática e Estatística (IMECC), o Instituto de Química (IQ), entre outras. 
Para o Instituto de Geociências da UNICAMP o profissional da área de Ciências da Terra, tanto no setor educacional ou em qualquer outra atividade que requeira habilidades relacionadas a este campo do conhecimento, exerce papel fundamental na construção de uma sociedade que pretenda dar aos seus membros condições para pleno desenvolvimento de suas capacidades. O papel que os cursos de Ciências da Terra devem desempenhar, nas modalidades Geologia (Bacharelado) e Geografia (Bacharelado e Licenciatura), é o de formar os melhores profissionais nestas áreas, aqueles que serão líderes nas suas atividades de atuação, nas áreas de pesquisa e docência, esta última, tanto nos níveis fundamental e médio como no superior. 
Dentre as habilidades almejadas segundo a proposta de reformulação do curso de Licenciatura em Geografia da Unicamp , incluem-se:
- Capacidade de participar na elaboração e desenvolvimento do projeto pedagógico da instituição de ensino em que for trabalhar, nos níveis fundamental e médio;
- Estar capacitado para ministrar disciplinas de Geografia nos níveis fundamental e médio;
- Estar em condições de inovar, tomar decisões e refletir sobre sua prática na educação em Geografia;
- Estar preparado para continuar seus estudos, em modalidades de educação continuada, especialização ou pós-graduação.
Atualmente o estudante pode obter ambos os graus, de Bacharel e Licenciado em Geografia, optando pelo reingresso depois de concluído um dos cursos. Está em estudos a alternativa de criação de Licenciatura no período diurno, para que o aluno desse período não precise solicitar o reingresso após concluir o Bacharelado.
Na UNICAMP a licenciatura em Geografia é oferecida no período noturno como modalidade do Curso Ciências da Terra, tendo sido igualmente implantada no ano de 1998, juntamente com o Bacharelado, tendo o mesmo núcleo comum, cabendo ao aluno fazer a opção pela modalidade oferecida (bacharelado ou licenciatura) após o quarto semestre.  
No Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) a entrada no curso de licenciatura de Geografia se faz no vestibular que não oferece a entrada separada. A formação do bacharel e do licenciado em Geografia é concomitante, e o currículo não apresenta diferenciação. As disciplinas “ditas” pedagógicas permanecem sob a responsabilidade do Colegiado de Pedagogia e as mais específicas sob a responsabilidade do Colegiado de Geografia, como de outros Colegiados. De certo modo o modelo 3+1 é reproduzido diluído ao longo dos 4 anos de formação.  
São oferecidas 70 vagas no período matutino e 70 vagas no período noturno. O curso é oferecido pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIL), que abriga todos os Colegiados que oferecem disciplinas para o curso de Geografia (Colegiados de Ciências Sociais, de Geografia, de História e de Pedagogia).
Reafirmamos que nos três projetos analisados destaca-se a necessidade de mudanças na maneira com que é efetivada a formação de professores. Caminha no primeiro momento contextualizando a formação atual dos professores, insuficiente para responder as novas demandas e necessidades da sociedade atual, exigindo um novo modo de ver e pensar  a Educação de uma fora mais global.  

Pensando na formação do sujeito formador: o professor universitário

A formação pedagógica do professor universitário é tema primordial quando se discute a melhoria do nível e da qualidade de ensino na graduação, principalmente em momentos que discutimos sobre as mudanças nas licenciaturas. E a quem cabe tal tarefa? O conjunto de reflexões apresentado anteriormente convida os leitores a esse diálogo, partindo do pressuposto de que, sim, faz diferença se o docente universitário teve acesso, ou não, à formação pedagógica adequada para adquirir competência profissional.
Partindo de uma análise da estrutura do ensino superior no Brasil, devemos percorrer um trajeto que passa por aspectos diversos da docência universitária e da interação entre os vários participantes do processo de aprendizagem, para finalmente apresentarmos sugestões práticas de planejamento e técnicas de ensino.
Juntamente com professores e alunos, devemos procurar identificar e testar condições facilitadoras de aprendizagem; possíveis de serem realizadas em sala de aula do ensino superior, que estejam ao alcance dos professores, que não exijam necessariamente recursos especiais e que possam envolver, motivar e interessar o aluno com relação ao processo de sua aprendizagem, bem como tornar gratificante para o professor seu árduo trabalho docente.


Conhecimento, Ensino e Aprendizagem nos cursos de Licenciatura

A modelo de formação de professores nas licenciaturas da USP reproduz a concepção de formação desse profissional apontada anteriormente, caracteriza-se em sua maioria como uma justaposição aos bacharelados de certas disciplinas pedagógicas e de atividades de estágio, sem continuidades e articulações entre essas diferentes etapas da formação do professor. Assim em praticamente quase todas as unidades o diploma de bacharelado é, de fato um pré-requisito para a obtenção do título de licenciado. No caso da formação de um licenciado em Geografia na USP, ele entra no vestibular cuja carreira é a de bacharel em Geografia e ao longo do curso (aproximadamente com 50% do curso de bacharelado concluído na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas4, o aluno pode frequentar as disciplinas pedagógicas na Faculdade de Educação). Nesse sentido, a formação de professores é concebida como uma superposição de dois conjuntos de conhecimentos, e que o aprendizado do saber disciplinar antecede o aprendizado do saber pedagógico.
A concepção dos cursos de licenciaturas da UNICAMP contempla o princípio de que o bacharel e o licenciado necessitam ter uma sólida formação teórico-prática nas ciências específicas. Espera-se, portanto, que saibam integrar o saber e a pesquisa na sua atuação, como forma de enfrentar, de maneira criativa, os problemas emergentes de um mundo em acelerada transformação. 
A flexibilização curricular introduzida com a LDB de 1996 possibilitou uma formação mais ampla dos alunos e, ao mesmo tempo, concedeu-se mais liberdade e autonomia didática às Instituições de Educação Superior. Nesse sentido, foram criados disciplinas com caráter multidisciplinar, focalizando temas como saúde pública, telecomunicações, ecologia e os denominados “trabalhos comunitários”. Busca-se desse modo obter forte inter-relação de conteúdos, além de uma formação abrangente dos alunos e, consequentemente, oferecer habilidades cada vez mais importantes nas diversas áreas de atuação profissional. Essa flexibilização propiciou a ampliação da formação básica do aluno, seja ele licenciado ou bacharel.
A exemplo dessa flexibilização os cursos de Licenciatura do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), estão passando por etapas de revisão do modelo 3+1, na maioria dos casos, diluindo ao longo dos quatro anos as disciplinas de formação do professor, sem contudo ter havido um equilíbrio quantitativo e qualitativo, nem um diálogo entre as disciplinas específicas e pedagógicas, com vistas a formar o professor para a escola básica de hoje. 

Pensando na função da Escola Básica na atualidade

O Licenciado é o profissional especialmente preparado para desempenhar as funções docentes no ensino fundamental e no ensino médio, além de também se preparar solidamente em conteúdos específicos de cada área de conhecimento universitário. Pode também seguir carreira acadêmica superior, continuando seus estudos na pós-graduação nas respectivas áreas, mas também em áreas afins, da mesma forma que o bacharel.
O conhecimento escolar assume a responsabilidade da explicação dos processos e fenômenos do presente, originados à partir da articulação de escalas: a relação entre o global e o local; a mediação entre políticas internacionais de educação e suas repercussões nas políticas nacionais; os novos fundamentos da ciência contemporânea; os novos papéis das fronteiras e das redes técnicas; os novos nexos da constituição do saber; a indissociabilidade entre elementos sociais, econômicos e políticos na sociedade atual.

Características de um educador em função da escola básica atual

Em consonância com as reflexões de ALVES (2001) sobre as dimensões necessárias para a formação de um educador, destacamos as dimensões técnica, política, ética e estética que a competência do educador pode abranger. A dimensão técnica  estaria relacionada ao domínio do conhecimento da área, dos recursos para socialização desse conhecimento, domínio dos saberes a ensinar e para ensinar, devendo ser constantemente fertilizada pela determinação consciente dos objetivos e finalidades. A dimensão política, por sua vez, se relacionaria à definição das finalidades da ação pedagógica e do compromisso em alcançá-las. A dimensão ética, considerada mediadora entre as dimensões técnica e a política é traduzida na indagação constante dos fundamentos e o sentido da definição dos conteúdos, dos métodos, dos objetivos, tendo como referência a afirmação dos direitos e do bem comum. Por fim, a dimensão estética se vincularia às capacidades de imaginação, de criação e de afetividade. A sensibilidade e a beleza como elementos constituintes do saber e do fazer docente.
Tais dimensões da competência do professor devem estar presentes na organização curricular dos cursos de formação de professores (as licenciaturas), seja como fundamento das disciplinas, explicitadas em suas ementas, seja na ação e procedimentos pedagógicos desenvolvidos por professores e estudantes, na forma de um currículo que tem como dinâmica a ação-reflexão-ação. 
Assim, definimos como competências e habilidades essenciais do professor a ser formado na atualidade:
compreensão dos fenômenos e da prática educativos em diferentes âmbitos, seja no ensino foral como no pós-formal;
compreensão do processo de construção do conhecimento no indivíduo inserido em seu contexto social e cultural;
compreensão do processo de construção do conhecimento por meio das práticas sociais e coletivas;
capacidade de formular e encaminhar soluções de problemas educacionais, tendo como parâmetro a Educação no seu sentido mais amplo, como direito universal dos homens;
valorização das diferentes linguagens (escrita, gráfica, oral, entre outras...), padrões e produções culturais existentes na sociedade atual;
capacidade de estabelecer diálogo entre á área educacional e as demais áreas do conhecimento;
capacidade de articular ensino e pesquisa na produção do conhecimento e na prática pedagógica;
capacidade para identificar, selecionar e desenvolver metodologias adequadas ao atendimento das necessidades de aprendizagem de pessoas e grupos;
articulação da atividade educacional nas diferentes formas de gestão educacional (do sistema, da unidade escolar e da sala de aula) na organização do trabalho pedagógico, no planejamento, execução e avaliação de propostas pedagógicas da escola;
capacidade de utilização das tecnologias de informação e comunicação como ferramentas facilitadoras do trabalho;
capacidade de fazer proposições para a área de Inclusão, em diferentes esferas sociais (raças, etnias, credos, condições sócio econômicas, culturas, presentes na diferentes esferas sociais);
Do desenvolvimento dessas habilidades e competências é que a escola atual se transformará, incorporando um profissional cuja formação tem e sua gênese a reflexão e a ação. Acompanhando às mudanças que ocorrem na sociedade. Afastando definitivamente o isolamento característico da função docente e das práticas pedagógicas inovadoras e contextualizadas. 

Observações no texto:

1. Tomamos como base para análise, os seguintes documentos legais:  Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores (Parecer CNE 009/2001); Resolução CNE/CP 01/2002, Resolução CNE/CP 02/2002, ancoradas pela Indicação CEE 007/2001 e as Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores de Geografia.

2. A análise foi feita em cima do documento que tivemos acesso denominado Proposta de Mudança Curricular - Curso de Licenciatura em Geografia (noturno), de autoria da comissão de Licenciatura do Instituto de Geociências e não da Comissão Geral de Licenciatura da Universidade Estadual de Campinas.

3.  No Centro Universitário Fundação Santo André o vínculo é efetivado por meio do Colegiado de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciência de Letras, responsável pelas disciplinas denominadas de “pedagógicas” para todos os cursos de Licenciatura.

4. A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências (FFLCH) é a unidade da Universidade de São Paulo que abriga o Departamento de Geografia que oferece o bacharelado de Geografia nos períodos diurno e noturno. 


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* Professor Mestre dos cursos de Geografia, Pedagogia e Formação de Professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIL) do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e doutorando no IG/UNICAMP 

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