A Atualização da Escola.

Publicado por Conteúdoescola - Escrito por Duglas Wekerlin Filho em 13/01/2004 às 10h12

RESUMO

As escolas estão sofrendo críticas constantes por não conseguirem desempenhar o papel que a sociedade lhes incumbe, gerando um profundo desconforto em relação à educação dos estudantes de hoje. Este artigo analisa a escola atual e faz proposições acerca do modo como ela pode se tornar atualizada no século XXI.
Palavras-chave: professor; sujeito; tradicional; escola; atualização; competência.

A ATUALIZAÇÃO DA ESCOLA

 

Ouve-se com freqüência que as escolas precisam mudar para atualizar-se com o mundo de hoje, proporcionando à atual geração condições de participar da vida em sociedade no século XXI, porém essas mudanças confrontam-se com muitas resistências, de todas as ordens. Mas, afinal, como está a escola hoje?

 

As escolas estão buscando mudar a forma de atuação no seu dia-a-dia, porém há a dificuldade de se abandonar a aula magistral em que o professor é o centro do processo.

 

As aulas, ainda, estão presas ao objetivo do passado de formar para uma vida futura, o que não é de todo mau. Porém, há a necessidade de se avançar, não se pode querer introduzir novas formas de atuação numa estrutura que não as suporta, pois já foi demonstrado ad nauseam que a escola do passado não consegue dar conta da aprendizagem dos estudantes que a freqüentam hoje, como demonstra NOT (1998, p.31):

A preparação para a vida adulta que estas formações tinham como objectivo não foi suficiente para assegurar uma dinâmica: o objectivo estava longe demais para fornecer energia às actividades, seduzindo o sujeito, e muito ambíguo para agir sobre a sua organização. A dinâmica era procurada nos trabalhos de casa (imperativo moral e obrigação de obediência à autoridade), mas isto são mais causas determinantes do que motivações, demasiado racionais e não suficientes para se envolver a actividade. Recorreu-se às sanções, mas o medo das sanções não é nada positivo, porque provoca comportamentos inibidores.

Os comentários acima não fazem parte do passado, pois podem ser aplicados hoje, haja vista que o medo e a obediência fazem parte do ideário de muitas escolas.

 

 

 

As expectativas centradas na transmissão de conhecimento ligam-se à questão da segurança quando se diz que não se pode deixar ao aluno a iniciativa, pois este ignora o que deve aprender e corre o risco de se atolar em tentativas intermináveis, em impasses e erros. No entanto, esse argumento se desfaz quando se vêem as tentativas e os erros como partes do processo de aprendizagem. O erro corrigido é educativo e não pode ser evitado a qualquer preço.

 

Outro fator é o pretenso ganho de tempo, pois poupa os alunos de esforços pessoais. Como diz COMPAYRÉ (apud NOT, 1998) sobre o papel do professor: "...em alguns minutos, resume o conteúdo de um livro; extrai dele as noções essenciais; põe em evidência uma ciência acabada".

 

Como é possível desejar que um aluno se desenvolva eliminando-se os obstáculos de sua trajetória? O caminho se faz ao caminhar, não por atalhos onde não se reconhece a construção desse caminho.

 

Os alunos não podem ficar à mercê de um intérprete, o professor, eles têm de estar em contato com o objeto a ser estudado, não com um discurso escrito ou formulado pela palavra professoral, pois se isso ocorre há apenas a imitação. O que se faz necessário é a criação ou recriação.

 

Como afirma FREIRE (1975, p. 66), "Educadores e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros".

 

Se essa condição não for levada em consideração, há de se prosseguir formando alunos com as visões nubladas, vendo apenas o que a escola deixou que eles vissem. Como exemplo, pode ser citada a história do pateta ao participar de um concurso de perguntas, Walt Disney (1998).

 

- Muito bem Pateta! Agora é a sua vez!
- Aqui está a sua pergunta! Se acertar, ganhará cem reais!
- Oba! Vamos lá!
- Se você tivesse duas dúzias de laranjas e vendesse meia dúzia, desse meia dúzia e chupasse o resto, quantas laranjas você teria chupado?
- Não sei!
- Ora, não diga isso! O seu tempo ainda não se esgotou! Não quer nem adivinhar?
- Eu nunca acertaria!
- Como é que pode ter tanta certeza de que não acertaria?
- É fácil!
- Não sei fazer contas com laranjas! Na escola só aprendi a fazer contas com maçãs.

 

Essa história ilustra como a escola precisa constituir-se em um local onde os alunos possam efetivamente desenvolver suas potencialidades nas mais diversas situações que lhes forem apresentadas vida afora.

 

 

 

Uma escola atualizada deve tratar com seriedade os ambientes de aprendizagem, já que esses têm sua importância por proporcionarem situações de diferentes formas, o que se aproxima dos estilos de aprendizagem propostos por GARDNER (2000) na Teoria das Inteligências Múltiplas. Porém, não se pode querer que os estudantes se aprofundem em todas as matérias, isso vai contra as proposições dele. Esclarece LITTO (2001, p.2): "Os ambientes de aprendizagem e de trabalho devem ser ricos em apoios tecnológicos de todos os tipos, porque tais apoios permitem formas de aquisição de conhecimentos mais ricos e mais eficazes do que as formas tradicionais".

 

É mister, pois, que os ambientes de aprendizagem sejam de tal modo que permitam a ocorrência do erro (sem que esse seja motivo de punição) e que, ao mesmo tempo, não haja situações de ansiedade, como é o caso da avaliação classificatória, e de fracasso.

 

DEMO (1997, p.17) também defende essa idéia:

Transformar a sala de aula em local de trabalho conjunto, não de aula, é uma empreitada desafiadora, porque significa, desde logo, não privilegiar o professor, mas o aluno, como querem as teorias modernas. Este deve poder se movimentar, comunicar-se, organizar seu trabalho, buscar formas diferentes de participação, a par de também precisar de silêncio, disciplina, atenção nos momentos adequados. Supõe ainda reorganizar o ritmo de trabalho, talvez não mais em aulas de 50 minutos, substituindo-as por um tempo maior que permita desenvolver tarefas mais participativas e profundas. Em vez de carteira individual, provavelmente seria melhor mesas redondas. Em vez do silêncio obsequioso, seria preferível o barulho de um grupo animado em realizar questionamentos reconstrutivos.

Fica claro que os ambientes de aprendizagem não podem ficar presos à disciplina imposta e ao silêncio, devem, portanto, permitir aos alunos fazer e refazer as tarefas até que lhes sejam aceitáveis e, assim, percebam a sua progressão.

 

Quando se fala em ambientes ricos em tecnologia, CASTRO (2001) adverte, de forma enfática, que não é necessário utilizar tecnologias de ponta, haja vista muitas escolas ainda não saberem utilizar os recursos de televisão, rádio, vídeos, gravador. Além disso, de nada adianta uma escola dispor de uma televisão, de um software Power Point, se não houver mudança na forma de atuar no processo de aprendizagem, pois o máximo que pode acontecer é o professor não sujar mais a mão de giz.

 

Muito tem-se discutido a respeito da passividade dos adolescentes na escola. BABIN e KOULOUMJJIAN (1989) demonstram que isso pode ocorrer em razão de os alunos não fazerem algo que eles próprios escolheram, pois sempre estão fazendo o que a escola, os pais, os professores e, até mesmo, as propagandas de TV querem. É a conformidade ao sistema, sem poder de crítica ou interiorização.

 

 

 

Essa passividade passa a ser preocupante quando se manifesta a falta de fé em si mesmo, em que o sujeito não se acha mais capaz, LITTO (1997). BABIN e KOULOUMJJIAN (1989) propõem que existam atividades ligadas ao desenvolvimento de projetos, dos quais os alunos possam ser os mentores; lembrando que as informações não estão apenas em textos, mas de maneira multimídia.

 

MORAN (1994, p.2) ainda afirma:


O conhecimento não pode ser reduzido unicamente ao racional. Conhecer significa compreender todas as dimensões da realidade, captar e expressar essa totalidade de forma cada vez mais ampla e integral. Entendo a educação como um processo de desenvolvimento global da consciência e da comunicação (do educador e do educando), integrando, dentro de uma visão da totalidade, os vários níveis de conhecimento e de expressão: o sensorial, o intuitivo, o afetivo e o racional.

A escola precisa ser empática, ou seja, tem de entrar na personalidade dos alunos para poder ajudá-los, deixando-os trabalhar em grupo, fazendo teatro, produzindo um telejornal, um vídeo. Os alunos de hoje são cinestésicos e os professores não, o que acrescenta um profundo desconforto para ambos. É necessário que a emoção esteja presente na escola, que haja um mergulho nos ambientes, que os alunos se sintam no mundo.

 

Uma lenda indígena conta que as pessoas sentem tudo com as solas dos pés, porém o homem passou a usar sapatos e perdeu essa sensibilidade. É importante que existam escolas que permitam aos alunos andar "descalços", deixando-os sentir verdadeiramente a vida, propiciando o aprendizado na natureza, com a natureza, com o coração, com o amor, com o outro, com o nosso planeta. Andar descalço, porém, faz com que surjam cortes na pele, que saia sangue, que apareçam bolhas, entretanto isso tudo encoraja, faz ver o que era invisível, faz sentir o cheiro nunca antes sentido, faz ouvir o inaudível, faz sentir na mão o que se tinha medo, faz surgir o amor nas coisas em que ele antes estava escondido.

 

Levar a emoção para a escola é possível em qualquer momento, mas é necessário ir além dela mesma, pois, caso contrário, desaparecerá rapidamente.

 

Não se pode, ainda, ficar apenas com o produto da aprendizagem, o processo também é importante, porém muitas vezes é subestimado. Na visão de LITTO (1997), os processos são mais importantes e não os produtos, porque permitem adaptações e atualizações. Embora essa visão seja permeada por um pragmatismo, ela revela um avanço importante.

 

 

 

Uma situação presente em muitas das atividades realizadas pelos alunos hoje é o uso de slogans, de frases curtas, em que a linguagem oral é usada na escrita. Freqüentemente, ouvem-se críticas de que os jovens não sabem escrever, no entanto pouco é feito para entender que eles necessitam que as palavras se enraízem na percepção sensorial, visual e sonora e passem, assim, a fazer parte do vocabulário dessa geração. Para tentar compreender isso, basta ver as salas de chat, o uso de icq e os e-mails, nelas há um vocabulário bastante particular sendo utilizado. Os jovens escrevem muito, porém do jeito deles. Isso não significa que eles não devam aprender a linguagem formal, pois, na vida, a "briga" se faz na linguagem formal e não na informal. Mas daí dizer que os jovens não escrevem é, no mínimo, querer ser míope.

 

Na atualização da escola, o professor tem o seu papel renovado no processo de aprendizado dos alunos. A sua função é mais diversificada, profunda, compartilhada, mais atuante.

 

Diante dessa situação, MASETTO (2001, p.144) explicita como pode ser entendida a mediação pedagógica em um ambiente de aprendizagem.

Por mediação pedagógica entendemos a atitude, o comportamento, do professor que se coloca como facilitador, incentivador ou motivador da aprendizagem, que se apresenta com a disposição de ser uma ponte entre o aprendiz e sua aprendizagem, não uma ponte estática, mas uma ponte 'rolante', que ativamente colabora para que o aprendiz chegue aos seus objetivos. É a forma de apresentar e tratar um conteúdo ou tema que ajuda o aprendiz a coletar informações, relacioná-las, organizá-las, manipulá-las, discuti-las e debatê-las com seus colegas, com o professor e com outras pessoas (interaprendizagem), até chegar a produzir um conhecimento que seja significativo para ele, conhecimento que se incorpore ao seu mundo intelectual e vivencial, e que o ajude a compreender sua realidade humana e social, e mesmo a interferir nela.

A mediação da aprendizagem nessa perspectiva põe em evidência o papel de sujeito do aluno, fortalecendo o seu papel ativo nas atividades que lhe permitirão aprender, bem como renova o papel do professor e de novos materiais nos ambientes onde se possa vivenciá-los.

 

Mas, infelizmente, toda tentativa de atualização esbarra na superficialidade de muitos e nas interpretações deturpadas de outros sobre determinadas teorias e situações, como pode ser demonstrado nas palavras de GARDNER (2000, p.102):

Meu ponto de ebulição foi atingido quando vi um quadro em que grupos étnicos e raciais da Austrália eram listados ao lado da inteligência específica atribuída a cada um (bem como da deficiência intelectual correspondente). Esta gritante estereotipação racial e étnica contrariava diretamente meu conhecimento científico e ofendia minha ética pessoal. Juntamente com outros críticos, fui a um noticiário de televisão e denunciei o programa educativo. É um alívio saber que depois o programa foi eliminado do currículo estadual.
Assim posto em brios identifiquei uma série de mitos sobre as inteligências múltiplas...


 

 

CONCLUSÃO

 

A atualização passa pela competência, ou seja, há a necessidade de se conhecer o que deve ser substituído, mas, mais ainda, o que será o substituto, para não ficar apenas na superficialidade ou, pior, na deformação das situações que foram propostas.

 

Ainda, a atualização da escola requer que os seus integrantes queiram se atualizar e que seja dada a infra-estrutura necessária, caso contrário, essa tentativa estará fadada ao fracasso ou ela será feita forçosamente, por conta dos indicadores de mercado. Essa atualização ocorrerá mais por uma questão de sobrevivência, do que pela motivação de querer pertencer a um mundo novo que está se formando.

 

Os alunos das escolas do século XXI necessitarão vivenciar a vida em seus aspectos mais variados possíveis, e o papel da escola deverá ser de orientadora (porém não mais tentando inculcar um formato), tendo uma visão de acolhimento dos alunos em um mundo que se faz e se refaz diariamente.

 

 

 

*Graduado em Biologia pela PUC-PR, Especializado em Limnologia pela PUC-PR, Mestre em Engenharia de Produção, na área de Mídia e Conhecimento, pela Universidade Federal de Santa Catarina. Doutorando em educação na PUC-SP. Professor da Universidade São Francisco, em Bragança Paulista.

 

REFERÊNCIAS

 

BABIN, Pierre; KOULOUMJJIAN, Marie-France. Os novos modos de compreender. São Paulo: Paulinas, 1989.
CASTRO, Cláudio de Moura. Ponto de vista. Veja, São Paulo: Ed. Abril, n. 1697, abril 2001.
DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa. 2. ed. Campinas: Autores Associados, 1997.
DISNEY, Walt. Fruto do ensino. 52338-RPD 11344-DE 102/14-DER 96/16 [s.l., s.d.].
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
GARDNER, Howard. Inteligência: um conceito reformulado. São Paulo: Objetiva, 2000.
LITTO, Fredric. Aprendizagem profunda. Disponível em: Acessado em: 28 mar. 2001. 
LITTO, Fredric. Indicadores de uma escola moderna. Disponível em: Acesso em: 28 mar. 2001. 
LITTO, Fredric. Para que serve a escola. Pátio, São Paulo, n.3, nov. 1997.
MASETTO, Marcos T. Mediação pedagógica e o uso de tecnologia. In: ____. Novas tecnologias e medição pedagógica. Campinas: Papirus, 2001.
MORAN, José Manoel. Interferência dos meios de comunicação no nosso conhecimento. Intercon, São Paulo, v.17, n.2, jul./dez. 1994.
NOT, Louis. Ensinando a aprender: elementos de psicodidática geral. São Paulo: 
Summus, 1993.
NOT, Louis. O ensino interlocucional: para uma educação na segunda pessoa. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.

Categoria: Texto Acadêmico

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