Só Tecnologia basta para os Alunos aprenderem Ciências?

Publicado por Conteúdoescola - Escrito por Duglas Wekerlin Filho em 18/02/2004 às 10h10

RESUMO

 

Este artigo analisa as características do Ensino de Ciências frente às tecnologias e às necessidades de uma educação em que a consCiência crítica e a autonomia sejam marcas fundamentais. Ainda demonstra como o papel do aluno tem de mudar no processo de aprendizagem, passar de um agente passivo para um agente ativo na sua aprendizagem.

 


Palavras-chave: autonomia; consCiência crítica; aprendizagem, tradicional, tecnologia ; utopia.

 

INTRODUÇÃO

 

Toda vez que se fala de Ciência vem logo à mente: laboratórios, cientistas, material sofisticado que apenas alguns poucos privilegiados podem compreender. Será que os cidadãos comuns não podem compreender o que representa a Ciência? Ou será que a Ciência não é para os cidadãos comuns? Ou ainda, a Ciência serve apenas para a dominação dos ditos capazes sobre os ditos menos capazes?

 

Estamos no início de um século no qual os avanços da Ciência estão surpreendendo até mesmo os que fazem Ciência. Será que o homem pensou algum dia que chegaria a transplantar a cabeça de um homem para outro? Ou quem sabe, a busca da eternidade está prestes a ser atingida? Morre um corpo e a cabeça muda de corpo uma vez, duas, três, quatro e quantas vezes mais for possível. Mas será que a cabeça levará consigo todas as histórias de cada corpo que a sustentou? Será que a cabeça conseguirá se atualizar a cada corpo? Ou será que cada corpo se atualizará a cada cabeça?

 

 

 

No meio dessa avalanche de surpresas científicas está a escola, como um ambiente legítimo para que a Ciência seja praticada, discutida, pensada, repensada, avaliada, criticada, analisada e colocada à disposição das pessoas, e na qual haja uma diminuição entre a altura do domínio e dos dominados.

 

Mas afinal, como a escola está tratando a Ciência? Ou ainda, a escola está trabalhando Ciência?

 

Hoje a quantidade de informações é avassaladora, o que gera um grande desconforto pois as situações estão cercadas por muitas facetas e há que se optar por um corpo de idéias . Na escola a informação não tem gerado conhecimento, apenas conflito, ou seja, apenas tem sido reconhecida como mais uma informação. Mas será que a escola está preparada para trabalhar conflitos? Ou ela é simplesmente a geradora de conflitos? O que não seria um mal se fosse utilizado no processo de aprendizagem dos alunos.

 

Em meio a toda essa dinâmica própria do novo século, como a Ciência e a tecnologia podem ajudar a escola a tirar a sonolência de seus alunos e levá-los a atividades que realmente os tornem participantes da vida educacional deles, tendo a autonomia e a consCiência crítica como marcas fundamentais.

 


ESCOLA , CIÊNCIA E TECNOLOGIA

 

Hoje as escolas têm divulgado a necessidade de os alunos aprenderem a aprender, porém ainda elas não têm claro a maneira que deve ser posta em prática para que isso ocorra.

 

Tem-se presenciando uma avalanche de informações sobre o uso de tecnologias educacionais em todas as partes do mundo. Porém muitos ainda se perguntam se esse uso traz benefícios no processo de aprendizagem dos alunos ou se é apenas um brinquedo caro que está sendo utilizado nas salas de aula. Há a necessidade de conhecermos as tecnologias e seus usos, para podermos avaliar a eficácia no processo de aprendizagem dos alunos.

 

Um bom exemplo da utilização da Internet e de tecnologias é o caso das rãs deformadas, nos EUA, que levou os estudantes do ensino fundamental e médio a se integrarem a cientistas e às comunidades locais e internacionais. No verão de 1995, estudantes do ensino médio, da Minnesota New Country School, em uma viagem de campo a uma fazenda, no sul de Minnesota, descobriram um grande número de rãs com deformidades: presença de membros extras ou faltando; com um olho só; com retenção de cauda; com falta de mandíbula. Cerca de 50 % das rãs-leopardo encontradas tinham deformações. Desde 1995, a partir da descoberta, houve um incremento no número de herpetologistas, biólogos, toxicologistas aquáticos e parasitologistas que estão procurando as causas do fenômeno. Esse fato propiciou que várias escolas do país se unissem nesse trabalho.

 

 

"Nós tínhamos crianças debatendo Ciências no pátio da escola" disse Linda Shear, consultora de tecnologia que trabalhou no projeto.( MINNESOTA AGENCY POLLUTION CONTROL, 1996).

Os alunos coletaram rãs deformadas, dissecaram-nas em laboratórios, fotografaram-nas, digitalizaram as imagens, tiraram radiografias, trocaram informações com pessoas de diferentes áreas do país e de outros países. Passaram a participar de congressos, seminários e palestras sobre o assunto , criaram girinos e testaram as hipóteses que foram levantadas. Os alunos não aprenderam apenas sobre a vida das rãs mas vivenciaram o método científico, foram além do simples constatar, os participantes levaram o debate para a comunidade local, nacional e internacional. Houve uma denúncia do que está errado e agora se busca a causa, e uma solução para o problema. Criou-se um fórum permanente. Criou-se um primeiro passo para o surgimento da consCiência crítica, pois todos tiveram de analisar as práticas atuais sobre o meio ambiente. Evidentemente que aqui pode surgir ainda mais forte a predominância do primeiro mundo, impondo regras e normas para o uso do meio ambiente dos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Como diria Freire, não se pode deixar que os fatos anteriores venham a domesticar e alienar pessoas em maior proporção. Aqui fica bem demarcado como a educação sempre é um ato político.

 

Um exemplo brasileiro é o Projeto Escola do Futuro, na área de Ciências/tecnologia, no qual os alunos desenvolvem projetos, passando os resultados encontrados via Internet para as escolas participantes dos projetos e para a Universidade de São Paulo, para o grupo de Ciências coordenado pelo Prof Dr Nélio Bizzo. Os projetos utilizam a Internet para a comunicação entre os alunos das escolas participantes, entre os alunos e especialistas e na busca de material sobre os projetos que estão sendo desenvolvidos. Há o uso de outras tecnologias como por exemplo, kits de Ciências para análises químicas, físicas e biológicas. Em todos os projetos há uma fase chamada de fechamento na qual são apresentados e discutidos os resultados encontrados pelas escolas. Esses resultados ficam disponíveis na Internet e podem ser consultados à medida que se tornam necessários.

 

Entretanto o ensino de Ciências ainda está envolto, de uma certa maneira, num pensamento que sem laboratórios e materiais sofisticados não possa haver aprendizado. Essa situação é comum em todas as partes do mundo.

 

Fato bem conhecido é a atitude ingênua de se pensar que as aulas de laboratório aumentem a capacidade de aprender do aluno só porque ele está tendo aula no laboratório. Podemos ver essa situação nos resultados do teste nacional de Ciências de 1996, das escolas americanas, publicado no jornal USA TODAY em 22 de julho de 1997, no qual num teste de 300 pontos de valor total, realizado em quarenta estados e quatro distritos, a média foi inferior a 150 pontos, sendo encontrado o pior resultado no distrito de Columbia, 113 pontos, e o melhor no estado de Maine, 163 pontos. As escolas americanas possuem laboratórios de Ciências muito bem equipados, diga-se de passagem. O laboratório por si só não garante aprendizado, é necessário que ele seja usado no momento certo e com atividades corretas para que o aprendizado ocorra.

 

 

 

Um outro exemplo pode ser um museu onde se tenha a ingênua idéia de que o simples olhar dará condições para que o aluno realmente possa aprender. Como diz o prêmio nobel de Física de 1992 Charpak, (1997, p.113): "O professor da aldeia, à semelhança do erudito iluminismo, reúne nas prateleiras os objetos que merecem ser examinados. Os humildes museus escolares são fundados na idéia de que basta ver para compreender e que o espetáculo de um objeto bem escolhido suscita sempre adesão à razão e aos saberes assim prodigalizados".

 

O que realmente precisa acontecer é o aluno fazer parte de um processo em que se sinta integrado às formas de aprendizado, que o motivam e o impelem a ir buscar novos desafios e consequentemente façam-no buscar os conhecimentos necessários para a superação dos desafios. A aprendizagem precisa ir além da escola, precisa entrar no bairro, na cidade, no estado, no país. A escola precisa se inserir na sociedade que a circunscreve.

 

Hoje estão ocorrendo diariamente novas descobertas na área da cognição, porém o uso de tecnologias educacionais ainda sofre uma repulsão por parte de professores que não acreditam que essas possam realmente ser utilizadas para melhorar o aprendizado. A maioria dos professores ainda acredita que o ensino baseado na transmissão de conhecimentos, na qual o professor fala, os alunos ouvem e depois têm de repetir aquilo que ouviram é mais eficiente. Como deixa claro Freire (2000, p 53). "Um problema que devemos falar, quanto à aula expositiva, é o fato de os professores a considerarem como a forma correta de ensinar. Ela lhes é apresentada, durante sua formação profissional, como a pedagogia do profissional, do expert." Esses professores se esquecem que as crianças e adolescentes do séc XXI não têm dificuldades psicológicas em trabalhar com as tecnologias que são colocadas a disposição deles. O que eles mais necessitam é de orientação.

 

Como exemplo pode-se citar o caso dos EUA no ano de 1996, no qual 65 % das escolas públicas tinham acesso à Internet e apenas 14% das escolas utilizavam em sala de aula, segundo National Center for Education Statistics.

 

Há porém que se tomar cuidado com o uso de tecnologias educacionais, pois o uso inadequado pode fazer com que se chegue ao mesmo resultado encontrado nas escolas que não as utilizam. Por ex: um professor não usa mais o quadro de giz, agora só usa o software Power Point. Se a forma dele atuar no processo de aprendizado não mudar, de nada adianta passar a usar o computador. No máximo ele resolveu um problema dele, pois não mais vai sujar suas mãos com o pó de giz. Também de nada adianta uma escola ter um ambiente natural propício para se trabalhar as Ciências se os professores não conseguirem se aliar aos recursos tecnológicos que hoje estão disponíveis. Há ainda a particularidade que os recursos têm de sofrer atualizações constantes, bem como os professores. A inovação na aprendizagem começa pela própria inovação do professor. Evidentemente que as escolas têm de oferecer aos professores tais recursos, não se pode exigir criatividade se não são dados recursos e oportunidades para que haja criatividade.

 

 

 

No entanto há escolas que estão investindo na formação dos professores para que os mesmos possam trabalhar na formação dos alunos para torná-los aptos a viver no século XXI.
De nada adianta um professor ter tecnologia à sua disposição se não souber utilizá-la em seu dia-a-dia, por outra, não adianta o professor estar aberto às mudanças se a instituição não quiser investir.

 

Outro fator de suma importância é a necessidade de os alunos realmente entenderem o verdadeiro sentido do aprender para a vida deles, buscar o que Paulo Freire propõe na tomada da consCiência, que por sua vez tem de levar à conscientização, ou seja, chegar ao desenvolvimento crítico da tomada de consCiência. Aqui tratada como um ato de ação-relfexão frente à realidade, ou de outra forma, tomar posse da realidade.

 

Ter cidadãos exije solução não enganação, o que temos visto até hoje, com as devidas exceções, é o estabelecimento de um pacto de mediocridade, ou seja, o aluno finge que vai à escola para aprender, para se desenvolver enquanto ser humano e os professores fingindo que ajudam os alunos a se desenvolverem para um futuro que nunca chega.

 

Há também a falsa idéia de criatividade, na qual os governos pedem a seus professores que a usem, porém não dão as condições necessárias para que haja um trabalho efetivamente producente, mais uma vez se tenta desviar a atenção das pessoas e colocar os professores na condição de culpados, certamente professores e alunos são vítimas de uma estrutura desgastada, enferrujada.

 

Apesar de existir segundo De La Torre (1993) a criatividade paradoxal. Aquela que é orientada pela carência, pela dor, pelo sofrimento, pela falta de condições básicas para viver, ao invés de ser em potência. Como exemplo pode ser citado o caso do pintor que pinta com o pincel na boca, pois seus braços e suas mãos são atrofiados.

 

Como se pode esperar que um dia as pessoas possam se manifestar de modo autônomo se essas pessoas não se prepararem para essa autonomia? Essa não acontece apenas por elas freqüentam uma escola. O que pode ocorrer é exatamente o contrário já que toda educação é um processo político e portanto há uma ideologia que a permeia.

 

Para que esse obstáculo possa ser superado tem de ocorrer na escola um salto do ensino para o aprendizado. O foco principal deve ser como os alunos aprendem e não a melhor técnica para o professor transmitir, apesar de isso ser também importante. Porém só isso não basta, tem-se de ir mais longe ainda, há que se dar oportunidade para que os alunos construam a sua autonomia.

 

 

 

A partir desse marco deve-se esperar uma mudança de postura dos professores frente ao aprendizado, deixando de ser apenas um transmissor, passando a ser uma pessoa envolvida na aprendizagem dele próprio e de seus alunos. Uma característica que é fundamental na nova postura do professor é a maleabilidade frente às situações que ocorrem durante a aprendizagem, não há respostas prontas, acabadas, mas sim um processo contínuo de aprender, deve haver uma relação dialógica como marca fundamental.

 

Hoje os alunos precisam participar mais ativamente no aprendizado deles, de nada adianta deixá-los passivos frente às situações que lhes são postas. Porém não é qualquer situação que é capaz de fazer com que os alunos venham a participar mais ativamente. Muitas tentativas são feitas e não dão os resultados esperados porque não levam em conta o contexto atual dos alunos . Porém de nada adianta os alunos saberem manipular máquinas, softwares, equipamentos de filmagem, máquinas de fotografia , se não souberem se expressar oralmente, pela escrita, se não souberem argumentar e contra-argumentar. O importante é que o enfrentamento sempre ocorre no formal e não no informal, no científico e não no senso comum. Não se pode negar o direito da formação "oficial", da formação formalmente aceita, há que se trabalhar nela e com ela. Inclusive para combatê-la quando for o caso.

 

Há a necessidade de se perseguir uma utopia, como diz Freire (1988, p. 27).

Para mim o utópico não é o irrealizável; a utopia não é idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico. A utopia exige conhecimento crítico. É um ato de conhecimento. Eu não posso denunciar a estrutura desumanizante se não a penetro para conhecê-la. Não posso anunciar se não conheço, mas entre o momento do anúncio e a realização do mesmo existe algo que deve ser destacado: é que o anúncio não é anúncio de um anteprojeto, porque é na práxis histórica que o anteprojeto se torna projeto; na minha biblioteca tenho um anteprojeto que se faz projeto por meio da práxis e não por meio de blábláblá.

Como se pode ver em Paulo Freire, não adianta ter boas idéias se elas ficarem apenas na conversa, tem-se de ir buscar a prática dessas idéias. Porém, essas não podem ser palavras da moda, palavras que são ditas apenas para impressionar, pois essas se perdem no vácuo da ignorância.

Categoria: Texto Acadêmico

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