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Pareceres Descritivos: Histórias de Saber, Poder e Verdade sobre os/as Infantis

O presente artigo tem por objetivo analisar e discutir os pareceres descritivos enquanto dispositivos de penalização normativa. A produção de tais documentos tem sido difundida de forma naturalizada nas escolas, como sendo o mais adequado registro de avaliação das crianças. O intuito da discussão que será desenvolvida, não é o de questionar a validade dos pareceres enquanto registros de avaliação, mas o de (na medida do possível) captar os seus efeitos no processo de subjetivação do infantil em situação escolar.

Resumo: O presente artigo tem por objetivo analisar e discutir os pareceres descritivos enquanto dispositivos de penalização normativa. A produção de tais documentos tem sido difundida de forma naturalizada nas escolas, como sendo o mais adequado registro de avaliação das crianças. O intuito da discussão que será desenvolvida, não é o de questionar a validade dos pareceres enquanto registros de avaliação, mas o de (na medida do possível) captar os seus efeitos no processo de subjetivação do infantil em situação escolar.

Palavras-chave: pareceres descritivos – modos de subjetivação - escola


Parecer v.int. Opinião ou juízo técnico sobre alguma matéria ou objeto (LUFT, p.417).
Descritivo adj. 1. Próprio para descrever. 2. Que descreve (Idem, p.172).



Quais são as histórias narradas  sobre as crianças na Escola Infantil?  Onde se encontram os registros a respeito das narrativas sobre as crianças? O que é narrado? Quais são os saberes produzidos pela escola em relação às crianças no registro de suas experiências no período diário que passam na escola? Quais são as representações de infância e família presentes nestas narrativas? Quem são as crianças /personagens das narrativas?  Os questionamentos lançados suscitam reflexões a respeito das diferentes formas que as crianças são narradas pelas professoras, funcionárias, pais e mantenedora no âmbito institucional.

As narrativas sobre as crianças estão presentes nos diálogos estabelecidos entre os/as diferentes personagens que atuam nas cenas da vida escolar, evidenciando a proposição de posições de sujeito para aqueles/as dos/as quais tratam. Posições que passam por um processo de naturalização na escola, ao serem tomadas como verdades incontestáveis, na busca pelo atendimento de "qualidade" às crianças. Esteriótipos de crianças com problemas, dificuldades de lidar com as turmas, (des)comprometimento das famílias em relação a parceria com a escola, relatos de propostas desenvolvidas nas salas de aula, interseccionam-se nas narrativas que circulam pelos corredores da instituição.

Essas diferentes formas de narrar as crianças  se materializam na documentação escolar , através dos pareceres descritivos. Pareceres que consistem em relatos escritos pela professora da turma semestralmente, como forma  naturalizada de comunicação do desempenho das crianças na escola, classificados na "mesma categoria do Boletim Escolar enquanto instrumentos de expressão dos resultados da avaliação sendo realizados somente após a realização de todo processo [avaliativo]" (CORAZZA,2002,p.25). Documentos escolares que produzem instrumentos e meios avaliativos, contribuindo com a função principal do poder disciplinar que é normalizadora. Função que de acordo com Kohan (2003, p.73) "inscreve as possíveis ações em um espaço a partir de uma normatividade que distingue o permitido e o proibido, o correto e o incorreto, o são e o insano".

Nesta perspectiva percebe-se através dos pareceres, uma intencionalidade formadora da escola, uma busca pelo disciplinamento dos corpos através da normalização das condutas, contribuindo para produção de subjetividades dóceis, maleáveis. Destaca-se neste sentido a positividade desta intencionalidade institucional, pois se ensina aos pais quem são as crianças, o que fazem na escola, as etapas de seu desenvolvolvimento, enfim o que os infantis/escolares precisam para transformarem-se em sujeitos "normais", auto gerenciados e aceitos pela sociedade. Uma preocupação em preparar as crianças para conviverem socialmente, respeitando as normas estabelecidas através dos cumprimentos de seus direitos e deveres enquanto futuros/as cidadãs/ ãos.

Estes documentos destacam-se dentre outras estratégias de normalização pedagógica, que nas últimas décadas passaram a fazer parte do repertório das chamadas pedagogias modernas. Pensar na desnaturalização dos pareceres que são vistos como uma forma "inovadora" de acompanhamento das experiências e descobertas vivenciadas pelas crianças, e na positividade dos mesmos enquanto dispositivos de penalização normativa, é o desafio que se apresenta. 

Desta forma, o presente trabalho utiliza-se das contribuições  dos Estudos Culturais  em Educação e, a partir de uma perspectiva pós-estruturalista, se propõe a problematizar, (des)naturalizar as representações de infância e família presentes em um parecer descritivo de uma turma de Educação Infantil, procurando evidenciar a vontade de saber, poder e verdade que permeia o texto deste documento . A operação analítica que será realizada a partir da análise do parecer, consiste na leitura da textualidade do mesmo, interrogando as evidências e efeitos de poder, saber e verdade na representação da criança e de sua respectiva família.


Nesta perspectiva, a análise deste parecer problematiza a ação normativa da escola que, através de descrições minuciosas:

exerce um novo poder de julgar, por colocar a criança em processo permanente de claridade, de produção, de normalização e patologização, até que ela mesmo interiorize a sua própria transparência e possa se tornar um civilizado indivíduo ocidental auto-normalizado (CORAZZA,2002,p.54)


Os pareceres são compreendidos conforme Corazza (2002), como um dos dispositivos que constituem a penalização normativa na escola, pois atuam no intelecto, na vontade, nas disposições e no coração do indivíduo.  Estes textos são originários de um poder epistemológico, que nasce da observação dos indivíduos, da classificação, do registro, da análise dos comportamentos e de sua comparação (FOUCAULT, 2003). Os registros dos pareceres analisados evidenciam uma captura minuciosa dos comportamentos das crianças em intersecção com as histórias vivenciadas no seio de suas famílias, através de uma interlocução com os/as leitores/as enfatizando como deve ser realizado o acompanhamento da criança fora dos limites que circunscrevem o espaços da instituição de educação infantil.

Formas de documentar as crianças consideradas por Kohan(2003), como parte integrante do jogo da escola, que ao tomar os indivíduos no interior de certas estratégias reguladas de comunicação e práticas de poder permitem o engendramento de novas subjetividades. Jogo onde se busca a evidencia da verdade do professor como tentativa de  converter a criança-aluno  a sua verdade. Desta forma as possibilidades do contexto  da criança passam a ser vistas como possibilidades e impossibilidades de lidar com o mundo, já que poder é saber.      

O trabalho será organizado em duas seções intituladas: A história de uma menina superpoderosa e Pareceres descritivos: diferentes histórias muitos caminhos.

A primeira seção se propõe a discutir o parecer descritivo da menina nomeada como D.o. A discussão evidencia o processo de exame interrupto que a criança passa no meio institucional. A criança-aluna  é narrada a partir dos conhecimentos que são produzidos sobre ela. Destaca-se no parecer, a positividade do poder disciplinar, que através do exercício atua sobre o corpo infantil tornando-o dócil.

A segunda seção intitulada, Pareceres descritivos: muitas histórias diferentes caminhos procura tensionar as posições de sujeito conferidas as crianças ao serem objetivadas como e houvesse a possibilidade de captura da infância. Evidencia-se na discussão a  intencionalidade formadora da escola, que conforme Kohan (2003) não só transmite conhecimentos, mas também forma pessoas, produzindo certos tipos de subjetividades.

A HISTÓRIA DE UMA MENINA "SUPERPODEROSA"

A D.o preocupou-me muito no início do ano, pois era muito desmotivada com as atividades que propunha, conversei com a mãe e mesmo assim não surtiu efeito, então revi minhas aulas e também não obtive êxito. Procurei estabelecer e fortalecer nosso vínculo e dessa forma começamos a nos entender. Percebo na hoje na D.o um interesse especial por tudo que fazemos.

Ela é uma menina temperamental, as vezes fica mau humorada e nem  conversa com ninguém, passa a manhã na sala de aula como se não houvessem outras pessoas ao seu redor. Em outros momentos chega alegre na escola, mas não consegue ficar quieta um minuto. Procuro conversar com ela, embora saiba que é importante ela verbalizar o que sente.

Na aquisição da escrita encontra-se no nível pré-silábico, ou seja, escreve uma porção de letras para representar a palavra sugerida no ditado. Quando D.o  chegou na escola não escrevia o seu nome e era muito "bagunçada". No final do quarto mês de aula começou a escrever o nome e a pegar o lápis da forma correta, além de apresentar mais capricho com seu espaço e pertences. Fico muito feliz em ter alcançado com ela estas glórias, pois sei que contribui para sua segurança e auto-estima.

Em matemática não reconhece os números e não os quantifica, mas continuo a insistir com ela na  elaboração do número através do concreto, e aos poucos estamos conseguindo.

Na área de movimento e expressão corporal me preocupa muito a D.o, pois cai da cadeira, tropeça no próprio pé, derruba colegas sem querer, além de com freqüência perder o tênis na fila. Acredito que parte de sua desorganização em sala e com seus pertences se deva, a sua dificuldade em trabalhar o próprio corpo. Trabalhamos bastante o limite físico do seu corpo, onde começa, onde termina, machuca não machuca o que sinto através do toque, sempre com músicas e brincadeiras. Acredito que com o desenvolvimento destas propostas D.o melhore em relação ao conhecimento de seu próprio corpo em relação ao espaço e consequentemente em relação à aquisição da escrita.

Acredito que o apoio da família será fundamental para o desenvolvimento da D.o, pois neste primeiro semestre não houve um comprometimento com a escola.  A família deve comparecer na escola sempre que for solicitada  pois precisamos tomar as mesmas medidas para que a menina comece a ser mais educada. Entendo que devido ao trabalho diário, fique difícil de comparecer na escola mas reitero que é fundamental pelo menos uma visita semanal. Solicito também a leitura do bloco de D.o diariamente, pois registro sempre o comportamento dela na aula e essa é uma boa estratégia para a família saber quando é o momento de fazer uma visita na escola.

O relacionamento de D.o com os colegas não é muito bom, e por isso tem poucos amigos. Quando surgem os conflitos ela parte para agressão física, seja em meninos ou meninas. Conversando com ela estou conseguindo reverter esse quadro, mas ainda acontece.
Atenciosamente, Prô
Julho/ 2003



Quem é essa menina/ criança descrita minuciosamente no parecer da professora?  Quais são as "verdades" sugeridas pelo parecer? Como ela é vista no âmbito escolar?  O que ela  deve fazer para ser  aceita pela escola? Qual é a responsabilidade de sua família na aliança que deve ser efetivada com a escola, para que D.oconsiga atingir as metas propostas para educação infantil?  Os questionamentos desdobram-se a partir da leitura do parecer da menina.


O término da leitura do parecer permite afirmar que ela é uma menina "superpoderosa". Mal humorada com a professora, agressiva com os colegas, bagunçada e aluna da educação infantil. Os diferentes olhos que a descrevem no parecer, estão comprometidos com determinadas relações de poder-saber e implicados em certas políticas de identidade (CORAZZA, 2002).  Olhares comprometidos na descrição perspicaz da conduta da criança na escola, onde a professora passa a ocupar, uma posição estratégica na difusão do poder disciplinar. Posição que não é a de vilã, pois ela torna-se:

em muitos sentidos, rebanho dos orientadores, dos conselheiros e dos diretores que, por sua vez, são também rebanho dos administradores, dos supervisores, e dos macrogestores. Ela também está presa ao controle e dependência dos outros. Ela está igualmente submetida a uma autoconsciência de que sua posição específica dificilmente lhe permitirá ver e não ter (KOHAN, 2003, p.88).


Não se trata da vilania de uns indivíduos contra os outros, no espaço da instituição educacional, mas de  dispositivos intencionais dos quais os pareceres descritivos fazem parte.

Penso a respeito da positividade dos pareceres utilizadas pela escola para capturar a menina, mostrando os diferentes caminhos que ela deve percorrer com sua família para  que seus comportamentos sejam aceitos. Nada escapa aos olhares vigilantes da professora, que minuciosamente descreve as atitudes da menina, o seu relacionamento com os colegas, o desenvolvimento de sua aprendizagem nas diferentes áreas do conhecimento e as suas dificuldades que devem ser superadas para que  se consiga extrair o máximo de suas potencialidades da forma mais econômica  e eficiente possível. Conforme Bujes (2002) a partir da vigilância produzida pela observação constante, as crianças se tornam objeto de controle, sendo conhecidos os seus modos de agir em suas preferências.

A escola desta forma cumpre o seu papel de exame interrupto, que em todo o seu cumprimento do ensino, operacionaliza uma comparação perpétua que permite medir e sancionar. A ação do exame na escola permite a passagem de conhecimentos aos alunos e a produção de saberes sobre o que cada um pode oferecer ao docente.

O excerto do parecer em que a professora enfatiza o uso do bloco como instrumento documentário do comportamento da menina, ilustra a característica individualizante deste operador disciplinar.  A professora enfatiza em seu parecer "solicito também a leitura do bloco de D.odiariamente, pois registro sempre o comportamento dela na aula  e essa é uma boa estratégia para família saber quando é o momento de fazer uma visita na escola".         

Kohan (2003), afirma que para cumprir a sua tarefa, a professora necessita conhecer detalhadamente os alunos, através do diagnóstico de suas emoções, capacidades e inteligências. Tornando-se elemento fundamental o conhecimento da história familiar das crianças com as quais trabalha, através de entrevistas para que nada escape ao seu controle. O excerto do parecer que segue, evidencia a preocupação da professora em estabelecer contato com a família:


A D.o preocupou-me muito no início do ano, pois era muito desmotivada com as atividades que propunha, conversei com a mãe e mesmo assim não surtiu efeito, então revi minhas aulas e também não obtive êxito. Procurei estabelecer e fortalecer nosso vínculo e dessa forma começamos a nos entender.



Se busca na história das famílias a essência da criança, uma verdade que dê conta da forma como ela se  apresenta, que sirva de respaldo para suas ações ou para enquandrar em padrões de normalidade/anormalidade. Desta forma a professora passa a ganhar  a confiança da criança, ouvindo seus anseios, angústias, desejos, mostrando que sem sacrifício se torna impossível desfrutar de uma vida justa e feliz.

O término da leitura do parecer descritivo de D.o permite afirmar que ela é uma menina "superpoderosa". Mal humorada com a professora, agressiva com os colegas, bagunçada e ainda extrovertida em algumas situações. Estes olhares que descrevem a menina não são apenas escolares, mas conforme Corazza (2002) estão comprometidos com determinadas relações de poder-saber e implicados em certas políticas de identidade. Olhares que se cruzam na esfera escolar, mas que não se configuram como um privilégio que a professora tem sobre as crianças, pois eles interseccionam-se com os olhares da equipe diretiva, com a mantenedora, com assessoria pedagógica que presta orientação a escola infantil. Estes cruzamentos são visibilizados em uma rede de poder-saber onde emergem conhecimentos sobre as crianças.


Uma produção de saberes é realizada pela instituição a partir da vigilância do comportamento da menina. Todos sabem que D.o não esta correspondendo às expectativas escolares e para isso é preciso (re)ativar a aliança com a família, mudar os rumos das aulas, incentivar os "bons" comportamentos da menina, mas acima de tudo enfocar as condutas que devem ser evitadas. Ao mesmo tempo em que o discurso escolar   faz a captura de D.o, descrevendo-a  como temperamental, agressiva, bagunçada com seus materiais, existe a tentativa de um enquadramento, pois nada pode escapar ao processo de exame.

A leitura do parecer permite identificar uma representação dessa criança, que tem um comportamento "temperamental". Conforme as palavras da professora:

Ela é uma menina temperamental, às vezes fica mal humorada e nem conversa com ninguém, passa a manhã na sala de aula como se não houvesse outras pessoas ao seu redor. Em outros momentos chega a ser alegre na escola, mas não consegue ficar quieta um minuto.


A descrição da  menina enquanto aluna da educação infantil, corresponde  ao que Corazza (2002) aponta como sendo o fundamento da pedagogia moderna, ou seja, a necessidade de conhecer através  do esquadrinhamento, categorização, classificação e produção de uma representação que tenta fixar identidades de um infantil-escolar. Existe a produção da essência de um infantil-escolar, que é posicionado como um sujeito universal e genérico, dotado de qualidades que a escola julga serem imprescindíveis para o desenvolvimento do futuro/a cidadão/ã.  

Os registros do parecer demonstram visivelmente a produção do poder disciplinar, que exercita o corpo infantil desenvolvendo novas habilidades. A professora enfatiza que: "quando D.o chegou na escola não escrevia o nome e era muito bagunçada. No final do quarto mês de aula começou a pegar o lápis e a escrever o nome de forma correta".  Existe uma produtividade neste exercício do poder disciplinar sobre o corpo infantil. Ao chegar à escola não sabia pegar o lápis, através das intervenções da professora a menina foi sendo exercitada para que conseguisse utilizar o material escolar.

Desta forma, o corpo da menina torna-se  foco de preocupação da professora em seus registros, pois "D.o cai da cadeira, tropeça, derruba colegas sem querer, além de com freqüência perder o tênis na fila ". As afirmações da professora permitem pensar no caráter social de construção do corpo. Um corpo narrado pelas palavras da professora, marcado pelas experiências vivenciadas nos diferentes espaços por onde circula. Corpo que conforme Goellner (2003,p.28) "é uma construção sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais, étnicos, etc.". Marcas que se constituem através do que é narrado sobre ele, ou seja, o que vai sendo construído pela linguagem. Linguagem que se materializa na escrita do parecer ao ser afirmado que a desorganização em sala de aula com seus pertences ocorram devido à dificuldade da aluna trabalhar com seu próprio corpo. Neste sentido, Goellner (2003), assegura que a linguagem tem o poder de nomear, classificar, definindo normalidades e anormalidades.

Afinal quem é essa menina?  A leitura permitiu conhecer a vida escolar de D.o a partir do olhar da instituição. Poderiam ser lançadas outras palavras, dependendo do contexto em que estivesse inserida essa  aluna-criança. O interessante é apontar  como os pareceres  enquanto dispositivos de penalização normativa, incidem no engendramento de determinados resultados, evidenciando o modo como a linguagem se constituí em operação disciplinar ao descrever os rituais de poder que são investidos nos corpos infantis.

DIFERENTES HISTÓRIAS: MUITOS CAMINHOS

No contexto da contemporaneidade (poderíamos também dizer pós-modernidade) coexistem múltiplas infâncias, descentradas, enigmáticas, inscritas culturalmente a partir de artefatos que procuram enunciá-las como o "outro" que deve ser conhecido e fixado. Desta forma torna-se fundamental desconstruir as metanarrativas sobre infância que fazem parte das formas como as crianças são descritas nos pareceres descritivos, dando visibilidade a várias formas de compreender a infância como construção social. É preciso pensar que as formas de existência das crianças são variadas, por isso suas infâncias devem ser contextualizadas em relação ao tempo, local e cultura, tendo como variantes as categorias de etnia, gênero e classe, entre outras.

Desta forma, podemos pensar que não existe algo como a infância ou a criança (DAHLBERG, 2003), um ser em estado essencial esperando para ser descrito, mas muitas crianças e muitas infâncias, (re)elaboradas em um conjunto ativamente negociado de relações. Relações que não se esgotam nas documentações escolares, mas que podem podem ser redimensionadas buscando compreender como as formas como tem sido narradas as crianças e as suas experiências enquanto indivíduos que partilham espaços no contexto da escola infantil.

Sendo assim, torna-se necessário incidirmos olhares, discutirmos saídas inventadas, problematizarmos tensionamentos que viabilizem as trocas que estabelecemos com o "outro", desvendando esses ciborgues, os quais ainda ousamos chamar de crianças, através de suas diferentes histórias e dos muitos caminhos pelos quais ainda podemos trilhar.

___________________________________
* Rodrigo Saballa de Carvalho é pedagogo, orientador pedagógico educacional no colégio Fundação Bradesco-Gravataí, mestrando do PPGEdu/UFRGS, na Linha Estudos Culturais em Educação, tendo defendido sua proposta de dissertação intitulada: Infância de pronta-entrega: tornando-se aluno/a da Educação Infantil (orientação da Profa. Dra. Iole Maria Faviero Trindade).


REFERÊNCIAS:

BUJES, Maria Isabel Edelweiss. Infâncias e Maquinarias. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

CORAZZA, Sandra Mara. O que quer um currículo? : pesquisas pós-críticas em educação: Petrópolis RJ: vozes, 2001.

DAHLBERG, Gunilla, MOSS, Peter; PENCE, Allan. Qualidade na Educação da Primeira Infância: perspectivas pós-modernas. Tradução de Magda França Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2003.

FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Tradução de Roberto Cabral de Melo Machado e Eduardo Jardim Morais. Rio de Janeiro: NAU editora, 2003.

GOELLNER, Silvana. A produção cultural do corpo. In: LOURO, Guacira Lopes (orgs.) Corpo, Gênero e Sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis, RJ:Vozes,2003.

KOHAN, Walter Omar. Infância. Entre educação e filosofia – Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

LUFT, Celso Pedro. Dicionário da Língua Portuguesa. Editores Associados, 1999.

Última atualização em 03/07/2011

 

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