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O Professor Como Profissional Reflexivo


Texto escrito pela leitora Dinéia Hypolitto, ressaltando a necessidade de contínua reflexão, por parte do professor, sobre suas práticas de ensino.


Pensar é começar a mudar. Todo ser, porque é imperfeito, é passível de mudança, progresso, aperfeiçoamento. E isso só é possível a partir de uma reflexão sobre si mesmo e suas ações. A avaliação da prática leva a descobrir falhas e possibilidades de melhoria. Quem não reflete sobre o que faz acomoda-se, repete erros e não se mostra profissional.

No caso do professor, isso assume conotação mais grave. Ele lida com gente, crianças e jovens que podem ser afetados por uma conduta inadequada e conceitos errôneos. O professor prático reflexivo nunca se satisfaz com sua prática, jamais a julga perfeita, concluída, sem possibilidade de aprimoramento. Está sempre em contato com outros profissionais, lê, observa, analisa para atender sempre melhor ao aluno, sujeito e objeto de sua ação docente. Se isso sempre foi verdade e exigência, hoje, mais do que nunca, não atualizar-se é estagnar e retroceder.

A velocidade das mudanças, as exigências da tecnologia e do mercado de trabalho são tantas e tão rápidas que o profissional pode ser pego de surpresa em sua prática cotidiana. Notícias, fatos, mudanças podem chegar à sala de aula pela boca dos alunos, sem que o professor tome conhecimento. Quantas vezes, em alguns casos, o aluno supera o professor! Está melhor informado, conhece palavras e expressões modernas, sabe do último fato social ou político, não apresenta mais certos costumes e exigências.

O professor, fechado em si mesmo e confinado à sala de aula, às vezes, não percebe o mundo lá fora. Não tem tempo ou condições de acompanhar. Daí, quando fala ao aluno, este não entende, mostra-se alheio e desinteressado diante de uma linguagem esquisita e arcaica.

Para cobrir essa lacuna e distância entre aluno e professor, só mesmo a reflexão: o que faço, o que digo tem ressonância, significado, importância para o aluno? "Refletir sobre o próprio ensino exige espírito aberto, responsabilidade e sinceridade" (Zeichner, 1993:17).


Quem não reflete em sua prática frustra-se aumenta sempre mais o distanciamento com o aluno. Embora não saiba expressá-lo, o aluno vive em um mundo todo seu, de sua idade e gosto: roupas, músicas, modas, linguajar, conceitos e práticas diferentes e até opostas às do mundo em que o professor vive e se formou. Senão houver encontro, conhecimento, discussão, o professor se verá falando às carteiras, sem ouvintes que se interessem ou entendam. "As práticas desenvolvidas sugerem que os formandos devem ser ouvidos. Ninguém conhece melhor os problemas e as soluções alternativas do que aqueles que os experimentam". (Esteves, 1993:21).

A reflexão leva a repensar o currículo, a metodologia, os objetivos: Quem é o aluno que está a minha frente, que quer, de que precisa, o que entende, qual a linguagem adequada para dialogar com ele.

Se o professor dá-se conta de que não está sendo entendido, cumpre-lhe investigar por que e proceder às mudanças necessárias. O aluno não vai mudar: é fruto de seu tempo, tem suas características e necessidades. O professor é que terá que entendê-lo para educá-lo eficazmente. "Cada um deve responsabilizar-se pelo seu próprio desenvolvimento profissional... A universidade pode, quando muito, preparar o professor para começar a ensinar." (ZEICHNER, 1993:17).

Uma das bases da educação é o diálogo e, no caso, saber ouvir. Ouvir o aluno, deixá-lo expressar o que sente, pensa, quer já é um grande passo para entendê-lo e orientar ou reorientar a ação pedagógica.

O saudosismo, o desejo da volta a um mundo em que não havia contestação, o professor tinha status e era o centro da sala de aula, ditando normas, pontos e conceitos, não se coadunam com o professor reflexivo, homem de seu tempo, de passo acertado com a evolução que continua. Vasconcellos (1995:67) nos explica que: "O espaço de reflexão crítica, coletiva e constante sobre a prática é essencial para um trabalho que se quer transformador".

Para se chegar a um aluno crítico, observador, questionador, exigente, que cobra qualidade, que precisa ser formado cidadão, só mesmo um professor, ele também, crítico de sua ação e sempre pronto a questionar-se para progredir. Vasconcellos (1995:56) descreve a postura do educador:

Conhecer, acolher criticamente, buscar o aprofundamento da proposta da escola; Procurar unidade de ação com colegas; Postura de investigação em relação à sua disciplina; Abertura; não querer ser o dono da verdade; Ser observador; Saber ouvir; Confiar nos companheiros; Disponibilidade para aprender; Desenvolver a postura interdisciplinar.


Infelizmente, o aluno apático e passivo é filho do professor. Este também, em muitos casos, tem se limitado a passar conteúdos, idéias, conceitos e normas, sem questioná-los nem vivenciá-los e, mesmo, sem entender o porquê de sua existência. Repete-os, passa para a frente porque assim os recebeu, estão no livro didático, não questiona sua atualidade e conveniência. Se foram úteis para uma época, não significa que não podem ser mudados. O professor sente "dificuldade em nadar contra a corrente (conflito de valores, visões de mundo)..., insegurança, receio de mudar, medo do novo" (Vasconcellos, 1995:19).

A avaliação da prática do professor deve envolver também o aluno. Através de questionários abertos e livres, sem medo de ouvir a verdade; por meio do diálogo com a classe, permitindo ao aluno expor suas dúvidas críticas e propostas; da observação da postura e reação dos alunos em classe e dos resultados das avaliações; da leitura e reflexão de bons autores que discutem metodologia, princípios e fins da educação; da conversa e discussão com os colegas, enfim, o professor prático reflexivo deve estar aberto a quaisquer sugestões e críticas que o ajudem a repensar-se como profissional a fim de reformular e melhorar a sua prática.

(1)Dinéia Hypolitto – Professora de Prática de Ensino e Coordenadora de Estágio da Universidade São Judas Tadeu (USJT) – SP. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo da PUC-SP. Supervisora aposentada da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Referências Bibliográficas

ESTEVES, Manuela & RODRIGUES, Angela. Análise das necessidades na formação de professores.Porto Editora, 1993.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Para onde vai o Professor? Resgate do Professor como Sujeito de Transformação. São Paulo: Libertad, 1995. (Coleção Subsídios Pedagógicos do Libertad; v. l).

_______. Construção do conhecimento em sala de aula. São Paulo: Libertad, 1995 (Cadernos Pedagógicos de Libertação).

ZEICHNER, Kenneth M. A Formação Reflexiva de Professores: Idéias e Práticas. Lisboa: EDUCA, 1993.

(1)Dinéia Hypolitto – Professora de Prática de Ensino e Coordenadora de Estágio da Universidade São Judas Tadeu (USJT) – SP.

Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo da PUC-SP.

Supervisora aposentada da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Última atualização em 04/07/2011

 

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