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Editorial: A Violência na Visão do Jovem Brasileiro |
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Por Francisco Valente*
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11 de agosto de 2004 |
Os
estudantes concluintes do ensino Médio e que participaram, em 2003, do
ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio, em 1,3 milhões de redações sobre
o tema: "A Violência na sociedade brasileira – como mudar esse jogo?"
apontaram, como as principais causas para essa situação anômica que
assola o Brasil:
- a desigualdade social - a falta de escolaridade - a desestruturação familiar
Como
conseqüência, apontaram a lotação de presídios, a privatização da
segurança (pública), e a falta de perspectiva (de vida) por parte das
pessoas.
Desses fatos, podemos tirar pelo menos duas conclusões importantes:
1)o
jovem brasileiro não é a criatura alienada que muitos acreditam seja,
idéia alimentada principalmente pela mídia, extrapolando para toda a
juventude um fenômeno típico de um segmento da sociedade
(lamentavelmente, o segmento socialmente mais privilegiado); os jovens
têm, isto sim, excelente visão do problema (da violência) e das
condições econômicas e sociais que o provocam, além de um vislumbre
sobre as possíveis formas de solução. E isto, comprovado em 1,3 milhões
de redações.
2)O Estado brasileiro, que se apropria, na forma de
impostos diretos e indiretos, de mais de dois terços da renda da
população (são 62 tipos diferentes de tributos, visíveis ou embutidos
em mercadorias e serviços) não oferece a contrapartida social mínima
necessária para o usufruto da cidadania e da dignidade humana.
Essa
contrapartida social mínima, necessária para o usufruto da cidadania e
da dignidade das pessoas, está prevista na Constituição Federal de
1988, em seus diversos artigos, assegurando a todo cidadão brasileiro:
direito à segurança pública, de modo a garantir o patrimônio e a integridade física e psicológica das pessoas;
direito
à educação básica, pública, gratuita e de qualidade, como elemento
através do qual se viabiliza a melhor inserção social possível;
direito à saúde, preventiva e curativa, dentro de padrões de qualidade compatíveis com a preservação da dignidade humana; e
direito
a emprego (criação de postos de trabalho através do fomento ao
desenvolvimento econômico e social ) e oportunidades de trabalho (apoio
à capacidade empreendedora).
Das causas apontadas pelos jovens,
a falta de escolaridade fala por sí; a desigualdade social e a
desestruturação familiar são conseqüências da situação surreal em que
se encontra a taxa de desemprego no país: 10,2 % da população não tem
emprego nem trabalho, sendo, só na região da Grande São Paulo (capital
e municípios vizinhos) cerca de 2 milhões de pessoas.
Os
estudantes ofereceram, como possível solução para o estado de violência
a que estamos submetidos, o investimento em oportunidades de educação e
geração de empregos.
Quando cobradas, as elites do país
(econômicas e políticas) encontram mil subterfúgios para fugir a uma
resposta direta: não se faz mais pelo povo porque não se tem vontade
política; não se proporciona mais segurança pública, educação, saúde e
trabalho pois as estruturas econômicas e sociais, do jeito em que se
encontram, favorecem estratos da sociedade que se locupletam da absurda
concentração de riqueza no Brasil. E não se fale em governos de
direita, conservadores, retrógrados, reacionários: a própria esquerda
institucionalizada no país, hoje no poder, repete com virtuosismo a
mesma lição de casa de governos anteriores, exigência do
neo-liberalismo.
* Francisco Valente é antropólogo e articulista do Conteúdoescola.
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