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A Importância do Amar e do Brincar Imprimir E-mail
Por Duglas Wekerlin Filho   
18 de outubro de 2004

ImageTemos visto atualmente cenas deprimentes em relação à vida dos jovens. Há a agressão, o uso de drogas. O divertimento é colocar o outro em risco ou se arriscar cada vez mais.

Fala-se que a adolescência está terminando cada vez mais tarde, os jovens querem permanecer na casa dos seus pais, não querem trabalhar, querem ficar à mercê da vida. Para onde ela indicar, eles se jogam. Não pensam nas conseqüências de suas atitudes. Às vezes pagam com a mutilação do próprio corpo.

Maturana (2004) no seu livro amar e brincar fundamenta a importância das emoções na vida do ser humano. Hoje o que mais se vê é o medo de demonstrar que é frágil, que chora ao ouvir uma canção que toca o coração e os tempos passados.

Quantas vezes um abraço, na hora certa, produz um efeito acolhedor, faz-nos sentir o próprio coração, sentimos que estamos vivos, que fazemos parte da vida do nosso planeta.

Quantas vezes ouvimos, também, dizer que homem não chora que tem de agüentar firme, que não se pode demonstrar fraqueza frente às situações que ocorrem diariamente. As mulheres podem chorar porque elas são diferentes, porque não são tão racionalistas quanto os homens, são mais emoção. Não há engano maior do que acreditar que as mulheres se deixam emocionar e que os homens não.

O homem que não consegue se deixar emocionar ao ver uma tarde bonita com o sol demarcando as diferentes tonalidades das paisagens, com o voar dos pássaros, com uma bela cachoeira, com a lua, com as árvores cheias de flores, não pode ser um homem presente na vida do planeta.

Muitos são os que se fecham dentro de mundos construídos na ilusão, no idealismo, no utopismo (DEMO, 2003), nas idéias de revolta por ver como a hipocrisia se faz presente na vida.

Vencer é mais importante, competir dá mais glórias, há programas que iludem as pessoas, querendo torná-las celebridades em 4 ou 5 meses. Essas pessoas não percebem que esses processos têm de ser construídos, não podem ser dados, nem transferidos de uma pessoa para outra. Cada pessoa tem de trilhar o seu próprio caminho.

Vemos cada vez mais a confusão que se estabelece nas escolas, professores e alunos perdidos, não sabem o que fazer. São vítimas do mesmo processo, estão reféns da sociedade, pois têm de dar conta do que lhes é solicitado.

Vemos todos os dias alunos pedindo socorro, para que eles sejam salvos deles mesmos, pois não conseguem dar conta do que a vida lhes oferece para começar a caminhar. Os professores estão se entregando emocionalmente, pois estão cercados pelos alunos, pelos coordenadores, diretores e pais que cobram atitudes por parte deles, chegando ao extremo de perderem a sua dignidade quando são acometidos pela síndrome de Burnout.

Basta conversar com os médicos do trabalho para constatarmos que os professores estão doentes do espírito, pois nunca foi tão difícil dar conta do que lhes é pedido. Os professores e alunos precisam ser aceitos, como qualquer ser humano.

Se a escola está impregnada de regras, de restrições, de desamor, de aparências, de hipocrisia, de maldizer, de medo, como pode dar conta dos estudantes que a freqüentam?

Tem de existir escolas que deixem seus alunos brincarem de verdade. Não usarem de termos mal colocados como aprender brincando ou coisa do gênero. Os alunos têm de saber o que é o emocionar, o que é o amar, o que é a ternura.

Não são somente as escolas que precisam deixar a emoção fazer parte da vida diária delas. A sociedade tem de aceitar o brincar como rito de passagem para o amor.

Não é de tolerância que o mundo está precisando, é de aceitação. É de respeito ao diferente, às várias tonalidades, aos diferentes corações. A nossa pátria-mãe (a Terra) está carente de amor, está desencantada com o que tem ocorrido com ela. Se bem que a tolerância ainda é melhor que a intolerância.

Os consultórios dos psicanalistas estão cada vez mais sem horários para atender às pessoas, às que podem pagar, às que se sentem presas a diferentes causas.

Temos de voltar à nossa história como espécie (filogenia) que tem marcas profundas que nos fazem sentir amor, afeto, ternura, já que o nosso linguajear (1) é que permitiu que tudo isso acontecesse, porém a nossa história individual (ontogenia) contradiz, muitas vezes, as marcas da nossa história como seres humanos. Vemos guerra, ódio, indiferença, desamor, inquietude que aprisiona, medo, medo de nos sentirmos sós, sós com nossos sofrimentos.

Temos marcas que nos mostram claramente como somos seres imersos no amor, como por exemplo, o ato sexual frontal, olhos nos olhos, emoção vista e sentida. Não podemos abdicar de sermos seres no amor, temos de recuperar a nossa inocência, a nossa boniteza que nos encanta e nos marca profundamente.

Necessitamos do amor de mãe, aquele que é incondicional, aquele que é pele na pele, toque no toque, que é choro no choro, que é cheiro no cheiro, que é noite e dia, que é amigo e fraterno, que é simplesmente ternura.

Essa falta de amor tem tornado os jovens mais "possessivos de amor", se é que podemos chamar de amor. Os namoros estão marcados por anéis de compromissos, não basta se bastarem. Há a necessidade de demonstrarem que já são possuídos e possuidores.

Estamos vivendo uma fase em que os namorados não podem ter vida própria, fazem uma soma, 1+1 = 1, em que há perda, pois nessa soma alguém está sendo descaracterizado, deformado, oprimido, controlado. Evidente que tem de haver sonhos juntos, progressos juntos, dores juntos, vitórias juntos, mas cada um tem de continuar sendo um não meio.

Quem não consegue brincar terá dificuldade para amar, pois o brincar é a aceitação do intenso, não do extenso, é a aceitação do momento, é a aceitação do outro. Esse momento dissolve-se na flecha do tempo. No tempo em que os corpos e as mentes se unem, se entrelaçam, se moldam e remoldam, é o ir e vir de corações. É um momento que vale per si, não há algo a mais que o tempo presente que se fará passado rapidamente.

Se o amar e o brincar fazem parte de nossa vivência, temos de nos redescobrir como seres humanos.

(1) Segundo Maturana é o fluir em coordenações de coordenações comportamentais consensuais. Quando, numa conversação, muda a emoção, muda também o fluxo de coordenações de coordenações comportamentais consensuais. E vice-versa. Esse entrelaçamento do linguajear com o emocionar
é consensual e se estabelece na convivência.

REFERÊNCIAS

DEMO, Pedro. A pobreza da pobreza. Petrópolis: Vozes, 2003.

DEMO, Pedro. Sociologia da educação. Brasília: Plano, 2004.

MATURANA, Humberto; VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.

Duglas Wekerlin Filho é professor da Universidade São Francisco – Bragança Paulista – São Paulo. Mestre em mídia e conhecimento pela UFSC. Doutorando em educação (currículo – complexidade) pela PUC-SP. E-mail: Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo

 

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