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Como Atuar nas Dificuldades de Acesso ao Código Escrito |
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Por Vicente Martins
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18 de outubro de 2004 |
O principal desafio
dos governos, estabelecimentos de ensino e docentes, no meio escolar, é
o de levar o aluno ao aprendizado da leitura, escrita e cálculo.
O que deveria ser básico no processo ensino-aprendizagem se tornou um
desafio aparentemente complexo para os educadores do século XXI:
assegurar ao educando a aprendizagem escolar. Por que o
domínio básico de lectoescrita se tornou tão desafiador para o sistema
de ensino escolar? Por que ensinar a ler não é tão simples? Como
desvelar o enigma do acesso ao código escrito?
Em geral, quando nos deparamos com as dificuldades de leitura ou de
acesso ao código escrito, esperamos dos especialistas métodos
compensatórios para sanar a dificuldade. O fracasso do ensino escolar,
no entanto, não é obra exclusiva da metodologia. Muitos são os fatores
que favorecem o fracasso escolar.
Nenhuma dificuldade se vence com método mirabolante. O melhor caminho,
no caso da leitura, é o entendimento lingüístico, por parte dos
docentes e discentes, do fenômeno lingüístico que subjaz ao ato de ler.
Ler é uma habilidade lingüística e traz, por isso, todas as
vicissitudes da linguagem verbal.
Ler é, ao primeiro momento, um ato de soletrar, de decodificar fonemas
representados nas letras; reconhecer as palavras, atribuir-lhes
significados ou sentidos; enfim, ler, realmente, não é tão simples como
julgam alguns leigos. Ler é uma habilidade das mais complexas no âmbito
da linguagem Qual, então, o papel do professor na formação de bons
leitores? Que passos devem levar a efeito no exercício da leitura.
O primeiro passo, nessa direção, é de o professor ensinar o aluno a
aprender a ler antes para, em seguida, praticar estratégias de leitura.
Em outras palavras, o docente deve atuar eficientemente diante das
dificuldades do acesso ao código escrito, as chamadas dificuldades
leitoras ou dislexias pedagógicas.
Quero dizer o seguinte: é papel do professor ensinar o aluno a aprender
mais sobre os sons da língua, ou melhor, revelar-lhe como a língua se
organiza no âmbito da fala ou da escrita.
Quando me refiro à fala, estou me afirmando, de alguma modo, que é
imprescindível tomá-la como ponto de partida para o estudo dos sons da
fala, dos fonemas da língua: consoantes, vogais e semivogais.
As dificuldades de leitura, em particular, têm sua problemática
agravada por conta da má sistematização, em sala de aula, do estudo dos
sons da fala, em geral, mal orientado por pedagogia ou metodologia de
plantão: afinal, qual o melhor método de leitura? O fônico ou o global?
Como transformar a leitura em uma habilidade estratégica para o
desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem do aluno?
Assim, um ponto inicial a considerar é a perspectiva que temos de
leitura no âmbito escolar. Como lingüística, acredito que a perspectiva
psicolingüística responde a série de questionamentos sobre o fracasso
da leitura na educação básica.
A alma e o papel, o pensamento e a linguagem, a fala e a memória, todos
esses componentes têm um papel extraordinário na formação para o leitor
proficiente.
Em geral, os docentes não partem, desde o primeiro instante de processo
de alfabetização escolar, da fala. A fala recebe uma desprezo tremendo
da escola e é fácil compreender o porquê: a escrita é marcador de
ascensão social ou de emergência de classe social.
A escrita é ideologicamente apontada como sendo superior à fala. A tal
ponto podemos considerar essa visão reducionista da linguagem, que quem
sabe falar, mas não sabe escrever, na variação culta ou padrão de sua
língua, não tem lugar ao sol, não tem reconhecimento de suas
potencialidades lingüísticas. Claro, a escrita não é superior à fala
nem a fala superior à escrita. Ambas, importantes e interdependentes.
As crianças, falantes nativas de sua língua, chegam à escola para ler,
mas primeiro escrevem para ler, lêem para escrever. É como se a escola
invertesse a lógica da língua natural que, antes de tudo, tem sua
âncora na fala. O caminho, mais adequado ao ensino eficaz da língua
materna, é pensarmos em método que parta da fala, ou seja, garantirmos
a fala para a habilidade leitora: deve-se, pois, dar liberdade de falar
para garantir uma leitura fluente. Quem não adquire confiança no seu
ato de falar, como pode ter fluência ou velocidade no seu ato de ler?
Uma pedagogia da lectoescrita, tradicional, tradicionalista e centrada
no professor e no ensino, denuncia que, no meio escolar, os professores
ditam palavras, frases e pequenas orações e as crianças, como escribas,
escrevem, escrevem e se tornam copistas. Se pensarmos em método, eis
aqui um flagrante fracasso pedagógico com a imposição de tal
procedimento: a escrita realmente é ponto de chegada e não de saída no
ensino lectoescritor de leitura, escrita e cálculo.
Certo é que a escola abafa a fala, manancial importantíssimo na
formação para leitura e para a expressão oral. A escola paga um preço
alto por tal atitude: as crianças deixam de aprender a ler, a escrever
e a grafar corretamente as palavras na língua padrão culta. A escola
gera o seu próprio fracasso.
No final de oito anos de ensino fundamental, encontrar crianças
inibidas, acanhadas nos corredores, não tenhamos dúvida, vem muito da
interdição da fala, e, conseqüentemente do corpo e da alma. A fala é
expressão de nossa alma, do nosso sentimento ou pensamento. Nós somos a
expressão da nossa fala.
A escola insistir em partir da escrita, a ortográfica, e despreza um
componente importante na compreensão da linguagem, que é fala, ou mais
precisamente os sons da fala, os fonemas da língua materna.
Aos três anos de idade, na educação infantil, as crianças já são
nativas de sua língua e sabem muito da organização da língua materna,
de sua regularidade, de sua estrutura e signos e significados que
expressam no cotidiano, a partir da sua própria fala espontânea.
A escola desconhece essa informação que qualquer manual de psicologia
da criança ensina: a fala é ponto de partida do ensino da língua.
Qualquer dúvida sobre essa hipótese, pode se pôr à prova por meio de
uma simples observação direta das crianças, sem maiores rigores
abstratos: realmente partir da fala faz com que a criança perceba que
traz consigo um rico manancial de informações preciosas sobre a
linguagem verbal escrita.
A fala na educação infantil é rico laboratório para os docentes. Por
ela, desenvolve-se na criança a percepção auditiva, fundamental para o
ensino da leitura. Ensinar a perceber o mundo, forma de fazer leitura
do seu cotidiano, é mais importante do que memorizar formas
lingüísticas, das regras do bem dizer. A verdadeira teoria da linguagem
vem do olhar, da observação. Olhar para o mundo, suas circunstâncias, é
uma forma de apreende-lo de forma sistemática e inspiradora.
É mais fácil uma criança guardar na memória aquilo que apreende com a
percepção do que aquilo que aprende com imposições de deveres, regras
ou tarefas escolares. A escola, infelizmente, não percebeu a validade
dessa informação didática. A escola, precisa, urgente, revelar suas
metodologias, suas partes na direção de um aprendizado eficaz da
lectoescrita (leitura, escrita e cálculo).
As relações entre linguagem oral e escrita são, na verdade, o primeiro
passo para o trabalho eficaz, no ambiente escolar, a título de
aquisição e desenvolvimento da leitura.
O que é a escrita senão o espaço material, objetivo, concreto, real,
visível de expressão e representação da fala, da linguagem oral? Minha
pergunta, na verdade tem uma resposta contumaz: a escrita busca no
reino da fala a sua expressão material. As crianças, desde cedo, devem perceber que há uma relação muito estreita entre fala e escrita.
A escrita é o esforço cultural e civilizatório do homem de representar,
por meio de sua percepção visual, os sons da fala, da sua expressão
oral. A alfabetização não vem apenas do olhar, mas da escuta ativa dos
sons da fala.
A boa alfabetização não viria, pois, a rigor, nem se justificaria
mesmo, com o uso, em sala de aula, de cartilhas de ABC, mas com a
valorização, no interior da escola, da expressão oral: isto é, defendo
aqui que a alfabetização escolar se dê inicialmente com os sons da
fala, uma alfabetização fonológica, para, em seguida, transformar-se em
alfabetização ortográfica. A fala precede a escrita na vida e na
escola, quer queiramos ou não. É um fato lingüístico, mas nem por
indução, é lógica para escola e para muitos educadores.
O segundo ponto que considero importante é a formação para consciência
fonológica e o domínio das habilidades metafonológicas para o
desenvolvimento da leitura fluente.
A consciência fonológica vem com o ensino formal e sistemático da
correspondência entre letras e fonemas da língua. Existem mais sons da
fala do que letras para representa-los, Daí, a correspondência entre
letras e fonemas não ser unívoca, mas equívoca.
Por exemplo, o som /a/ é, em boa parte, na escrita, representado pela
letra "a". O som /b/ (leia-se bê) é representado na escrita pela letra
b. Mas, a letra "c" pode representar o som /s/ (leia-se sê) ou o som
/k/ (leia-se cá), dependendo do ambiente fonológica. Em casa, a letra
"c" representa o som /k/, mas em cebola, a letra "c" representa o som
/s/. Ora, isso, sim, que precisa ser bem ministrado pelos docentes e
não pode ser ensinado, outrossim, por qualquer pessoa, por uma pessoa
sem habilitação e, a rigor, é uma atividade exclusiva para um pedagogo
com formação lingüística ou para um lingüista com formação pedagógica.
Quem pretende ser alfabetizador ou alfabetizadora deve conhecer a
fonologia da língua materna, especialmente os fonemas consonantais: | Classificação das consoantes | | As consoantes são classificadas de acordo com quatro critérios: a- Nas oclusivas existe um bloqueio total do ar. b- Nas constritivas existe um bloqueio parcial do ar. 2-ponto de articulação:
é o lugar onde a corrente de ar é articulada (lábios, dentes, palato. .
.) De acordo com o ponto onde é articulada, as consoantes são
classificadas em: a- bilabiais- lábios + lábios. b- labiodentais- lábios + dentes superiores. c- linguodentais- língua + dentes superiores d- alveolares- língua + alvéolos dos dentes. e- palatais- dorso do língua + céu da boca f- velares- parte superior da língua + palato mole 3-função das cordas vocais: se a cordas vocais vibrarem, a consoante será sonora; no caso contrário, a consoante será surda. 4-função das cavidades bucal e nasal: caso o ar saia somente pela boca, as consoantes serão orais; se sair também pelas fossas nasais, as consoantes serão nasais. QUADRO DAS CONSOANTES | Fonte webliográfica: http://www.portugues.com.br/fonetica/fonema/fonema7.asp
Quando as crianças, na faixa de 3 a 6 anos de idade, aprendem os
fonemas da língua são levadas, no ensino fundamental, já entre 7 a 14
anos de idade, à consciência fonológica e às habilidades fonológicas.
Por exemplo, saber quantas letras e fonemas possui uma palavra,
discrimina-las uma a uma, ou fazer sua divisão silábica revela muito da
capacidade fonológica da criança.
Quem adquire, na idade própria, a consciência dos sons da fala pode
relacionar esta habilidade lingüística com a aprendizagem da leitura
nos anos subseqüentes. O que é ler um texto senão decantar os sons da
fala ali, em enigma, na escrita ortográfica?
O trabalho com a consciência fonológica favorece ao ensino da
ortográfica. O que é a ortografia senão uma representação, na escrita,
dos sons da fala? Portanto, ler ajuda na consciência ortográfica.
Grafar bem as palavras ajuda no ato de ler com proficiência.
Por que a escola não alcança essa consciência da língua e de sua
estreita relação com suas habilidades lingüísticas (leitura, escrita,
escuta e fala)? Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará, Brasil. |
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