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Obstáculos Educacionais Imprimir E-mail
Por Duglas Wekerlin Filho   
03 de março de 2005
ImageResumo: O presente artigo trata dos obstáculos educacionais que dificultam a aprendizagem dos alunos nas escolas. Procura demonstrar como professores e alunos são vítimas do mesmo processo político-educacional. Aborda as características que os professores têm de ter em relação aos alunos do século XXI. Reivindica que a emoção seja levada a sério e faça parte do projeto pedagógico das escolas. Demonstra a necessidade de resgatar a auto-estima dos professores para que eles possam trabalhar com dignidade e prazer.
A educação não pode ser reduzida apenas a conhecimento, porque recai no cognitivismo que ignora outras faces como emoção e subjetividade. 

Essa visão de educação necessita ser repensada, trabalhada, avaliada, para que os estudantes possam efetivamente se envolver no processo de educação deles próprios, porém se educar é ajudar a compreender a si mesmo, os outros e o mundo, como a escola pode fazer parte desse processo se ela ainda está centrada no instrucionismo, na disciplina imposta e não entendida?

Ter cidadãos exige solução não enganação, o que temos visto até hoje é que pobre tem escola pobre (DEMO, 2003). Evidentemente que há muitas razões para que isso ocorra, por exemplo: em uma turma com 50 alunos, o melhor que um professor pode fazer é apelar para o instrucionismo, pois as direções das escolas não querem que haja barulho, movimentação de alunos, ou seja, eles querem a ordem, enquanto a vida fora da escola exige movimento contínuo, busca permanente, diálogo, confronto de idéias, desordem caminhando para a ordem (MORAES, 2004).

Há também a falsa idéia de criatividade, os governos pedem a seus professores que a usem, porém não dão as condições necessárias para que haja um trabalho efetivamente producente, tenta-se desviar a atenção das pessoas e colocar os professores na condição de culpados. Certamente professores e alunos são vítimas de uma estrutura desgastada, enferrujada. Fazem parte do mesmo projeto e processo.

Como podemos esperar que um dia as pessoas possam se manifestar de modo autônomo se essas pessoas não se prepararem para essa autonomia?

Para que esse obstáculo possa ser superado tem de ocorrer, na escola, um salto do ensino para o aprendizado. O foco principal deve ser a aprendizagem dos alunos e não a melhor técnica para o professor transmitir.

A partir desse marco deve-se esperar uma mudança de postura do professor frente ao aprendizado, deixando de ser apenas um transmissor, passando a ser uma pessoa envolvida na aprendizagem dele próprio e de seus alunos, como diz Demo (2004) “ser professor é cuidar que o aluno aprenda”.

Uma característica que é fundamental na nova postura do professor é a maleabilidade frente às situações que ocorrem durante a aprendizagem, não há respostas prontas, acabadas, mas sim um processo recursivo e contínuo de aprender.

Os alunos precisam participar mais ativamente no aprendizado deles. De nada adianta deixá-los passivos frente às situações que lhes são postas.

Porém não é qualquer situação que é capaz de fazer com que eles venham a participar mais ativamente. Muitas tentativas são feitas e não dão os resultados esperados porque não levam em conta o contexto atual (século XXI) dos alunos. Pouco adianta os alunos saberem manipular mecanicamente máquinas, softwares, equipamentos de filmagem, máquinas de fotografia , se não souberem se expressar oralmente, pela escrita, se não souberem argumentar e contra-argumentar.

O importante é que o enfrentamento, no dia-a-dia, sempre ocorre no formal e não no informal, no científico e não no senso comum. O saber pensar é salto qualitativo.

    Há a necessidade de se perseguir uma utopia. Como diz Paulo Freire (1980):

Para mim o utópico não é o irrealizável; a utopia não é idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico.


A utopia exige conhecimento crítico. É um ato de conhecimento. Eu não posso denunciar a estrutura desumanizante se não a penetro para conhecê-la. Não posso anunciar se não conheço, mas entre o momento do anúncio e a realização do mesmo existe algo que deve ser destacado: é que o anúncio não é anúncio de um anteprojeto, porque é na práxis histórica que o anteprojeto se torna projeto; na minha biblioteca tenho um anteprojeto que se faz projeto por meio da práxis e não por meio de blábláblá.

Como podemos perceber em Paulo Freire, não adianta termos boas idéias se elas ficarem apenas na conversa, tem-se de ir buscar a prática dessas idéias. Porém não devem ser idéias de moda, palavras que são ditas apenas para impressionar, pois essas se perdem no vácuo da ignorância.

O importante é poder vivenciar momentos de discussão, de diálogo, de enfrentamento de diferentes idéias. Como afirma Japiassu (1990): “(...) e tem consciência de que a verdade, além de ser filha do tempo e ter sempre um futuro, é filha da discussão, não da simpatia (...)”.

Ou como aconselha Bachelard (apud JAPIASSU, 1990): “os mestres não podem mais, como os celibatários que substituem os sentimentos por hábitos, substituir as descobertas por aulas”.

Está claro que é injusto culpar os professores por todos os problemas que o processo de educar está passando. Muitas vezes os professores “tiram água de pedra”.

Quantas vezes já ouvimos a seguinte pergunta. Você trabalha ou só dá aulas?

Essa pergunta demonstra claramente como a educação é entendida por alguns grupos de pessoas. Esquecem-se de que um dia passaram pela escola e por professores e professoras.

Sem dúvida a profissão de professor tem de ser resgatada e junto com ela os professores e professoras que enfrentam diariamente as mais diversas situações que são marcas do século XXI.

É mister resgatar a auto-estima de professores e alunos, não se pode mais deixar que eles fiquem à deriva no processo de aprendizagem.  É necessário que eles estejam motivados para que possam produzir o que se espera deles.

Ser professor exige que os conteúdos sejam dominados em profundidade, porém há que se dar espaço para que a emoção entre na escola  de maneira séria e não fique apenas por alguns momentos e se dissipem. 

Fala-se muito a respeito da qualidade que as escolas têm de ter. Os resultados das avaliações dos estudantes brasileiros demonstram o desastre que tem ocorrido no processo de aprendizagem.

Temos de reconhecer que há vários obstáculos educacionais que dificultam que os alunos aprendam verdadeiramente, porém não podemos ficar imobilizados frente ao reconhecimento desses obstáculos. 

É necessário superá-los, mas para que isso possa acontecer, professores, alunos e autoridades públicas precisam tecer um projeto que não fique apenas no papel, mas que efetivamente leve a sério o processo educacional.  


*Contato do autor: Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo


Referências Bibliográficas

1) BACHELARD, G. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

2) DEMO, Pedro.  Educação e desenvolvimento: mito e realidade de uma relação possível e fantasiosa.  Campinas, SP: papirus, 1999.

3) FREIRE, Paulo.  Conscientização: teoria e prática para a libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. 3.ed.  São Paulo: Moraes, 1980.

4) JAPIASSU, Hilton. Um desafio à educação: Repensar a pedagogia científica. São Paulo: Letras&Letras, 1999.

 

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