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O Conselho de Classe: prática escolar e produção de identidades Imprimir E-mail
Por Mirtes Lia Pereira Barbosa*   
10 de maio de 2005

RESUMO: Situado na linha de pesquisa dos Estudos Culturais, a partir de uma pesquisa de inspiração etnográfica, este trabalho faz uma discussão do Conselho de Classe, realizado ao final de cada trimestre, de uma escola municipal de Porto Alegre/RS, de organização curricular por Ciclos de Formação. No decorrer da leitura será possível acompanhar como esta prática, tão naturalizada no espaço escolar, constitui-se como uma técnica do poder disciplinar que ao registrar, analisar, avaliar transforma cada um/a em um “caso” a ser medido, comparado, classificado, registrado, normalizado, excluído conforme sua singularidade e individualidade. A intenção aqui é trazer alguns aspectos a serem discutidos acerca de um dos temas que nos parecem tão corriqueiros e naturais na cotidianidade da escola e que, na maioria das vezes, seus efeitos nos corpos dos quais se referem, passam despercebidos por sua longa e histórica presença no contexto escolar.

PALAVRAS-CHAVE: Conselho de Classe - prática escolar – identidade


MARCANDO CORPOS

Neste texto estarei analisando a prática do Conselho de Classe, enquanto prática escolar de exame. Esta análise é resultante de pesquisa de dissertação de mestrado cuja proposta intitula-se Corpos marcados: quando práticas escolares produzem identidades. Esta pesquisa situa-se na linha de pesquisa dos Estudos Culturais e foi realizada em uma escola pública municipal de Porto Alegre/RS, organizada através da proposta curricular por Ciclos de Formação. Esta proposta tem sido implementada na capital gaúcha desde o ano de 1994 quando, através de diversos debates e discussões nas escolas e entre as escolas, juntamente com a Secretaria Municipal de Educação, se definiu as diretrizes básicas e a implantação gradual desta estrutura nas escolas municipais porto-alegrenses.

Prática corriqueiramente utilizada em escolas públicas e privadas, o Conselho de Classe constitui-se em um espaço de reunião de professores/as de diferentes especialidades com o intuito de definir o “destino” escolar de cada aluno/a sobre os/as quais falam. Para tanto, utilizam-se de diversos instrumentos de avaliação de onde os resultados obtidos são devidamente registrados como forma de argumento para o que será definido para cada aluno/a.

Para melhor entendermos como se dá a organização da prática do Conselho de Classe, apresento como a avaliação é realizada e nomeada, ao final de cada ano, nas escolas por ciclo. Neste período, os/as alunos/as são classificados/as conforme sua forma de progressão para o ano ou ciclo2 seguinte, a partir da análise realizada pelo grupo de professores/as e outros/as especialistas que tenham trabalhado com o/a mesmo/a aluno/a. Estas formas de progressão são assim definidas:

PS: Progressão Simples - O aluno prosseguirá seus estudos normalmente.


PPDA: Progressão com Plano Didático-Pedagógico de Apoio – O educando que persistir com alguma dificuldade progride para o ano seguinte mediante a elaboração e acompanhamento deste plano didático- pedagógico. O Dossiê servirá de guia para que os professores do ano seguinte possam adequar o seu trabalho considerando as dificuldades específicas deste educando.


PSAE: Progressão Sujeita a uma Avaliação Especializada – O educando que apresentar a necessidade de uma avaliação mais aprofundada a respeito das dificuldades, além das habituais, poderá passar por uma avaliação especializada que apontará as bases para que seja elaborado um plano didático-pedagógico de apoio, individualizado, que respeite as características especiais do educando e lhe proporcione condições de superação destas dificuldades.


PAE: Pós-Avaliação Especializada – refere-se à avaliação realizada pela escola e seus profissionais, bem como os da SIR, logo é uma avaliação pedagógica-que diz do trabalho da escola. A PAE deve ter sido antecedida pela PPDA e PSAE. Em cada Conselho de Classe de final de ano, o grupo de professores/as, alunos/as e pais e ou mães ou responsáveis, deve discutir um programa de estudos específicos para os/as alunos/as com maiores dificuldades, a ser seguido e acompanhado por estas/es no ano seguinte, na forma de um Agrupamento Temporário, discutindo, inclusive, quem será o professor indicado para trabalhar com estes alunos/as3.(PORTO ALEGRE, 2003, p. 94)


Nesta prática de avaliação os/as alunos/as estão constantemente sendo visualizados/as, observados/as pelo conjunto de especialistas que compõe os/as profissionais da escola. A avaliação é cotidiana, pois todos os dias, toda a semana, até o final do ano, cada indivíduo está sendo percebido pelos adultos que trabalham com ele. Ao observar, diagnosticar e registrar, saberes estão sendo extraídos sobre cada indivíduo de forma a objetivá-lo, enquadrá-lo dentro de uma determinada categoria de desenvolvimento que define normas a serem alcançadas por todos/as. Desta forma, a observação se dá, como nos aponta Foucault (2002), para “manter os indivíduos em seus traços singulares, em sua evolução particular, em suas aptidões ou capacidades próprias, sob o controle de um saber permanente.”(p.158) Saberes de especialistas que se ocupam em avaliar e corrigir os desvios apresentados em relação a uma média desejada.

Cada forma de avaliação, nas escolas por Ciclos, preocupa-se em definir os graus de aprendizagem e desenvolvimento de cada aluno/a em particular, atribuindo-lhes especificidades, o que permite classificar sujeitos entre aqueles que aprendem e que não aprendem, os que têm ou não dificuldades, dificuldades em maior ou menor grau. Ao definir formas de ser, agir e aprender define-se, previamente, que alguns dos indivíduos não estarão dentro desta média4, portanto, estratégias serão necessárias para enquadrá-los. Condições de normalidade e anormalidade5 são estabelecidas a partir de um “sistema comparativo [...] a descrição de grupos, a descrição de fatos coletivos, a estimativa dos desvios dos indivíduos entre si, sua distribuição numa ‘população’ ”(FOUCAULT, 2002, p.158).

Para cada momento uma forma de avaliação, para cada forma de avaliação um tipo de registro, para cada registro uma classificação, para cada classificação um encaminhamento.

Tudo isto registrado no Dossiê6 dos/as alunos/as, o qual permanece na escola guardado de forma que qualquer especialista ou familiar, devidamente autorizado pela Equipe Diretiva da escola, possa pegar, ler e entender como é este sujeito, o quê ele apresenta, onde se localiza no tempo e espaço desta instituição. Instituição, que defino aqui como uma instituição de seqüestro por seu caráter disciplinar, que se preocupa em definir normas onde todos/as devem ser enquadrados e fixados.

Se pensarmos as instituições de seqüestro de acordo com o que propõe Foucault (2003b), encontraremos nessa forma de organização curricular, instituições que se dedicam ao controle dos indivíduos, dos seus corpos, do seu tempo e que, ao controlar, extraem saberes sobre estes indivíduos, como meio de formar e reformar os corpos ali presentes. Um local onde o poder é circulante, pois para cada caso há um olho de controle que se empenha em qualificar a produção dos/das alunos/as. Desta forma, creio possível entendermos os Ciclos de Formação como uma instituição de seqüestro, uma vez que, ao controlar o tempo, delimitar os espaços, vigiar os corpos, empenhar-se em dominar o máximo possível de saber sobre os indivíduos ela cumpre com a sua função de captura desses corpos. Exige diferentes funções de diferentes pessoas que, ao acompanhar a aprendizagem dos indivíduos podem classificá-los, definindo-os como os que sabem e os que não sabem, os que acompanham e os que não acompanham o processo esperado de aprendizagem, encaminhando-os para seus devidos lugares, já definidos pela estrutura escolar dos Ciclos para que possam ser normalizados.



 

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