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A nova ordem mundial e a escola
Se a sociedade atual carece um conceito de paradigma que a abarque com maior precisão, a escola, componente que é desta sociedade, acaba por ser incidida por esta problemática. Assim, sob a égide da mão invisível do mercado, o Estado vai paulatinamente se desobrigando de sua incumbência para com a Educação, e esta por sua vez, relegada à orfandade, torna-se presa fácil à investida privada que dá inicio então a uma verdadeira reconfiguração do seu papel, atrelando-o tão somente aos ditames do mercado.
Desta forma, os ideais que foram erigidos através de longas lutas pela efetivação da Escola pública e gratuita para todos, ideais estes que tem como maior referencial a revolução francesa e as idéias iluministas – liberdade, igualdade e fraternidade -, são sobrepostos e em seu lugar insurge novos ideais: preparação para o mercado, individualismo e competitividade. Não é por menos que nos últimos anos vem-se assistindo a uma démarche do ensino médio, que nem prepara o aluno para o mundo profissional, nem lhe oferece uma sólida formação humana, senão vincula-se estritamente à idéia de possibilitar ao aluno um lugar no ensino superior. A boa escola é aquela que põe o maior número de alunos seus na universidade.
No ensino fundamental, o fato não foge a regra e já é parte integrante do discurso pedagógico expressões como qualidade total, gerenciamento pedagógico, qualificação para o mercado, estímulo à competitividade dentre outros. Fica patente que se encontra latente a tais expressões a idéia de cidadania consumista. Mais que a formação de sujeitos aptos a exercer sua participação ativa no seu processo histórico, o desiderato é formar os futuros clientes do supermercado chamado futuro.
A indagação que se torna pertinente é: como o professor vai exercer sua atividade num espaço em que entram em choque a vertente democrática de cidadania e a vertente consumista imposta pela nova ordem mundial?
O professor e a formação do cidadão
Em primeiro lugar, é necessário evidenciar que a formação dos professores – em especial daqueles do ensino fundamental que, em observância à LDB nº 9394/96, devem possuir diploma de curso superior até 2007 – é calcada em linhas ideológicas de cunho crítica, em grande parte relacionadas às tendências progressistas da educação, o que por sua vez se converte em uma formação que propugna por uma cidadania que tem como corolário a formação de indivíduos cientes de seus direitos e deveres e aptos a participar ativamente enquanto sujeitos históricos da sociedade que compõem. Vale dizer, porém, que esta formação acima citada não implica, necessariamente, em sua efetivação pelos professores. Entretanto, tal registro torna-se pertinente na medida que, vindos de uma formação progressista e deparando-se com uma imposição (da nova ordem mundial) revestida de conservadorismo, o professor vê-se diante de um paradoxo que urge por ser superado. É neste momento que entra em choque a teoria e a prática docente, o que pode vir a se converter em suicídio da práxis pedagógica. Vejamos o porque.
A esfera educacional é freqüentemente povoada pelas ditas inovações pedagógicas. Vez por outra surge um teórico novo, uma nova e mirabolante idéia, novos conceitos, enfim novas soluções para as velhas chagas educacionais. Estas pseudopanacéias, pelo menos por dois motivos transformam-se em óbices à verdadeira práxis pedagógica.
Por um lado tem-se o nefasto maniqueísmo teórico-pedagógico em que, surgindo as pseudopanacéias, execra-se tudo aquilo que lhe antecedera, ou seja, as idéias e concepções antigas perdem seu valor, passando a ser taxadas de obsoletas, quando não simplesmente “fora de moda”. O prejuízo daí decorrente é que o relevante é “estar na moda”, e não a análise crítica do novo sem o ônus de desmerecimento do “velho”. Não há a preocupação de se re-elaborar o pensamento pedagógico antigo (tese) no sentido de confrontá-lo com o novo (antítese), para que a adoção de novos rumos teóricos (síntese) seja fruto de uma empreitada crítica e, por conseguinte, mais contundente.
A pergunta “o que significa elaborar o passado” requer esclarecimentos. Ela foi formulada a partir de um chavão que ultimamente se tornou bastante suspeito. Nesta formulação, a elaboração do passado não significa elaborá-lo a sério, rompendo seu encanto por meio de uma consciência clara. Mas o que se pretende, ao contrário, é encerrar a questão do passado, se possível, inclusive riscando-o da memória (ADORNO, p. 29, 1995).
Por outro lado, tem-se o problema do discurso vazio. Sob a escusa de estar vinculado a esta ou aquela linha pedagógica (a “última moda”) o professor, pela ausência mesma de um conhecimento mais profundo que lhe garanta efetivar a prática não dissociada da teoria que diz respaldá-lo, desemboca em uma antipráxis, em que não é nem obsoleto, nem atual ou muito menos vanguarda: é simplesmente vazio! Estes dois óbices constituem-se prelúdios do supracitado suicídio da práxis pedagógica da seguinte forma:
- Ao aderir à formação do cidadão cliente e/ou consumista que a nova ordem mundial impõe, o professor, que traz consigo um referencial pedagógico progressista em que a concepção de cidadão não coincide com aquela imposta, vê-se diante de um labirinto e tende a enveredar pelo que lhe é imposto pelo sistema. Fazendo isso, ele não elabora criticamente o seu conhecimento adquirido e sua formação, procedendo de forma a exclui-lo, uma vez que o pragmatismo pedagógico diz que não há mais porque educar os alunos politicamente, mas tão somente o preparo e provimento de “capital humano”. O passado passa a ser uma longínqua referência, por demais opaca, e o presente o ditame absoluto; e
- Sob um outro ângulo, ao se apropriar de um discurso que lhe é novo (e sob certos aspectos é este novo que o fascina), sem o devido conhecimento do mesmo e desprovido de verdadeiro discernimento, o trabalho pedagógico é por demais comprometido, resvalando por fim numa prática inócua porque vazia de conteúdo e coerência. Vale ainda registrar que professor procura “vestir a camisa” dos ideais que diz representar por um lado e por outro assume perante a comunidade escolar um posicionamento progressista, resquício talvez de seu longínquo referencial opacizado.
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