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Os desafios do professor diante da perspectiva de formação de cidadãos na nova ordem mundial Imprimir E-mail
Por Ronald C. Corrêa*   
07 de junho de 2005


Neste espectro, uma questão urge por ser levantada: como convergir a prática docente a um ponto em que, a concepção democrática de formação de cidadão e a concepção “criticizada” de cidadão consumista, sejam superadas e o substrato desta superação seja uma formação de um cidadão omnilateral? A pergunta em si já é parte da resposta, e naquela já há várias nuances que permitem uma aproximação, cautelosa, porém munida de coerência.

É primeiramente necessário transpor o paradigma dicotômico convencionado pela ciência moderna em que se limita a separar as unidades sem a ousadia de lançar-se para além da separação, à junção. É preciso, pois, procurar analisar os problemas sob a luz da complexidade.

A inteligência que só sabe separar rompe o caráter complexo do mundo em fragmentos desunidos, fraciona os problemas e unidimensionaliza o multidimensional. É uma inteligência cada vez mais míope, daltônica, e vesga; termina a maior parte das vezes cega, porque destrói todas as possibilidades de compreensão e reflexão, eliminando na raiz as possibilidades de um juízo critico e também as oportunidades de um juízo corretor ou de uma visão a longo prazo (MORIN, p. 29, 2002)   
 
Faz-se assim, urgente a reforma do pensar os problemas de forma a encará-los como passíveis de superação por incorporação. Destarte, é preciso elaborar o passado (concepção democrática de cidadão) de forma que dele seja extraído seu núcleo válido e consentâneo ao momento histórico hodierno, para que possa ser confrontado com o presente criticizado (concepção consumista de cidadão). Logo, trata-se de extrair das duas concepções os pontos que as aproximem de uma concepção de cidadania plena. Neste momento, é oportuno re-visitarmos a idéia de omnilateralidade.

A omnilateralidade é, pois, o chegar histórico do homem a uma totalidade de capacidades e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de capacidade de consumo e gozo, em que se deve considerar, sobretudo, o usufruir dos bens espirituais, além dos materiais de que o trabalhador tem estado excluído em conseqüência da divisão do trabalho (MANACORDA apud GADOTTI, p. 58, 1995).   

Pensar o cidadão enquanto ser omnilateral é concebê-lo como sujeito de direitos e deveres, construtor de sua história, sem, porém, excluí-lo do mundo do mercado, mas o dotando de consciência crítica que lhe possibilite autonomia ao se relacionar com este mundo e não simplesmente subserviência a ele.

Neste itinerário, o professor tem uma tarefa imprescindível e intransferível. Cabe a ele pôr-se diante de si mesmo e perguntar sobre quem ou que é realmente. Da resposta corresponderá o caminho a ser seguido. Considere-se aqui que a resposta seja que ele é um sujeito cujo trabalho seja formar cidadãos plenos, omnilaterais. Então alguns pontos devem ser esclarecidos para que tal desiderato se torne exeqüível.

O primeiro ponto é rever sua prática, fazendo-se vigilante de si mesmo e eterno questionador da atividade que desenvolve. Enquanto sujeito histórico em constante construção e integrante de uma sociedade dinâmica, deve estar sempre se analisando para evitar não só o anacronismo como também os modismos efêmeros e vazios que envolvem sua atividade teórico-pratica. Esta atitude não é tão facilmente alcançada, pois a mudança sempre traz consigo a insegurança que decorre do desconhecido. Ademais, o conformismo é uma barreira por demais difícil de ser ultrapassada, porém também passível de ultrapassagem.

A [...] idéia de recuperação, por parte dos professores e de qualquer agente educativo, do controle sobre seu processo de trabalho, desvalorizado em conseqüência da fragmentação organizativa e curricular, do isolamento, da autonomia fictícia e da rotinização e mecanização laboral. O objetivo consiste em fortalecer os professores e professoras para aumentar sua (auto)consideração. E esse objetivo é alcançado mediante a colaboração e participação de todos. Não há democracia sem participação (IMBERNÓN, p. 80, 2000)

 Um segundo ponto a ser considerado é a necessidade de o professor se desvencilhar das amarras que o prendem ao interior da escola de tal forma que se pode mesmo tecer uma analogia entre a escola e um casulo. Tal como no caso deste último, é preciso que o professor rompa com limites parametrados pelos muros escolares e vá até a realidade social (a história em movimento) e volte à escola trazendo para a sala de aula esta mesma realidade filtrada pela criticidade. Nestes termos, opera-se um movimento tal que escola e sociedade superam a relação bipolar que as mantém afastadas e alcançam a condição de unidade: uma unidade dialética.

Porém, para que a relação escola x sociedade se dê de forma profícua, faz-se mister um sólido e coerente embasamento teórico. É necessário que haja um constante re-visitar da prática sob o olhar crítico da teoria, evitando-se assim os autodidatismos irresponsáveis. É importante ainda evidenciar o fato de que tão perigoso quanto a ausência do embasamento teórico é o proselitismo cego, acrítico e incondicional às pseudopanacéias pedagógicas. Faz-se regra, assim, a postura de discernimento crítico diante das teorias.
Este ponto remete a outro, que vem corroborá-lo e sem o qual dificilmente pode tornar exeqüível ou válida a necessidade de embasamento teórico acima aferido, qual seja a organização docente intra-escolar.

Tanto no primeiro quanto no segundo ponto supra-expostos, percebe-se o aspecto individual, de introspecção, um conhece-te a ti mesmo como marcantes. O terceiro ponto, porém, pode ser concebido enquanto premissa daquilo que Gramsci convencionou de Catarse, ou seja, o ponto de partida para a passagem de uma concepção egoísta-passional para uma concepção ético-política. É o momento em que o professor percebe que, sendo necessária a prática da autocrítica, ela se constitui em um aspecto e não na totalidade de um processo que lhe impulsiona a articulação grupal com um propósito maior que não se resume a reflexões isoladas, mas reflexões coletivas que podem re-configurar a prática escolar em sentido lato. Em outras palavras, neste terceiro ponto, o professor percebe que é preciso superar o individualismo para que a idéia de mobilização e envolvimento da coletividade possa ser alcançada, e por conseqüência, os anseios individuais se tornem interesse coletivo comum e possam ser compartilhados no sentido de tornar mais forte e mais coerente a busca da satisfação destes.



 

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