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Pareceres Descritivos: Histórias de Saber, Poder e Verdade sobre os/as Infantis Imprimir E-mail
Por Rodrigo Saballa de Carvalho   
08 de julho de 2005
Resumo: O presente artigo tem por objetivo analisar e discutir os pareceres descritivos enquanto dispositivos de penalização normativa. A produção de tais documentos tem sido difundida de forma naturalizada nas escolas, como sendo o mais adequado registro de avaliação das crianças. O intuito da discussão que será desenvolvida, não é o de questionar a validade dos pareceres enquanto registros de avaliação, mas o de (na medida do possível) captar os seus efeitos no processo de subjetivação do infantil em situação escolar.

Palavras-chave: pareceres descritivos – modos de subjetivação - escola

 

Parecer v.int. Opinião ou juízo técnico sobre alguma matéria ou objeto (LUFT, p.417).
Descritivo adj. 1. Próprio para descrever. 2. Que descreve (Idem, p.172).

                  

        Quais são as histórias narradas  sobre as crianças na Escola Infantil?  Onde se encontram os registros a respeito das narrativas sobre as crianças? O que é narrado? Quais são os saberes produzidos pela escola em relação às crianças no registro de suas experiências no período diário que passam na escola? Quais são as representações de infância e família presentes nestas narrativas? Quem são as crianças /personagens das narrativas?  Os questionamentos lançados suscitam reflexões a respeito das diferentes formas que as crianças são narradas pelas professoras, funcionárias, pais e mantenedora no âmbito institucional.

        As narrativas sobre as crianças estão presentes nos diálogos estabelecidos entre os/as diferentes personagens que atuam nas cenas da vida escolar, evidenciando a proposição de posições de sujeito para aqueles/as dos/as quais tratam. Posições que passam por um processo de naturalização na escola, ao serem tomadas como verdades incontestáveis, na busca pelo atendimento de “qualidade” às crianças. Esteriótipos de crianças com problemas, dificuldades de lidar com as turmas, (des)comprometimento das famílias em relação a parceria com a escola, relatos de propostas desenvolvidas nas salas de aula, interseccionam-se nas narrativas que circulam pelos corredores da instituição.

         Essas diferentes formas de narrar as crianças  se materializam na documentação escolar , através dos pareceres descritivos. Pareceres que consistem em relatos escritos pela professora da turma semestralmente, como forma  naturalizada de comunicação do desempenho das crianças na escola, classificados na “mesma categoria do Boletim Escolar enquanto instrumentos de expressão dos resultados da avaliação sendo realizados somente após a realização de todo processo [avaliativo]” (CORAZZA,2002,p.25). Documentos escolares que produzem instrumentos e meios avaliativos, contribuindo com a função principal do poder disciplinar que é normalizadora. Função que de acordo com Kohan (2003, p.73) “inscreve as possíveis ações em um espaço a partir de uma normatividade que distingue o permitido e o proibido, o correto e o incorreto, o são e o insano”.

           Nesta perspectiva percebe-se através dos pareceres, uma intencionalidade formadora da escola, uma busca pelo disciplinamento dos corpos através da normalização das condutas, contribuindo para produção de subjetividades dóceis, maleáveis. Destaca-se neste sentido a positividade desta intencionalidade institucional, pois se ensina aos pais quem são as crianças, o que fazem na escola, as etapas de seu desenvolvolvimento, enfim o que os infantis/escolares precisam para transformarem-se em sujeitos “normais”, auto gerenciados e aceitos pela sociedade. Uma preocupação em preparar as crianças para conviverem socialmente, respeitando as normas estabelecidas através dos cumprimentos de seus direitos e deveres enquanto futuros/as cidadãs/ ãos.

         Estes documentos destacam-se dentre outras estratégias de normalização pedagógica, que nas últimas décadas passaram a fazer parte do repertório das chamadas pedagogias modernas. Pensar na desnaturalização dos pareceres que são vistos como uma forma “inovadora” de acompanhamento das experiências e descobertas vivenciadas pelas crianças, e na positividade dos mesmos enquanto dispositivos de penalização normativa, é o desafio que se apresenta. 

                 Desta forma, o presente trabalho utiliza-se das contribuições  dos Estudos Culturais  em Educação e, a partir de uma perspectiva pós-estruturalista, se propõe a problematizar, (des)naturalizar as representações de infância e família presentes em um parecer descritivo de uma turma de Educação Infantil, procurando evidenciar a vontade de saber, poder e verdade que permeia o texto deste documento . A operação analítica que será realizada a partir da análise do parecer, consiste na leitura da textualidade do mesmo, interrogando as evidências e efeitos de poder, saber e verdade na representação da criança e de sua respectiva família.



 

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