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O término da leitura do parecer permite afirmar que ela é uma menina “superpoderosa”. Mal humorada com a professora, agressiva com os colegas, bagunçada e aluna da educação infantil. Os diferentes olhos que a descrevem no parecer, estão comprometidos com determinadas relações de poder-saber e implicados em certas políticas de identidade (CORAZZA, 2002). Olhares comprometidos na descrição perspicaz da conduta da criança na escola, onde a professora passa a ocupar, uma posição estratégica na difusão do poder disciplinar. Posição que não é a de vilã, pois ela torna-se:
em muitos sentidos, rebanho dos orientadores, dos conselheiros e dos diretores que, por sua vez, são também rebanho dos administradores, dos supervisores, e dos macrogestores. Ela também está presa ao controle e dependência dos outros. Ela está igualmente submetida a uma autoconsciência de que sua posição específica dificilmente lhe permitirá ver e não ter (KOHAN, 2003, p.88).
Não se trata da vilania de uns indivíduos contra os outros, no espaço da instituição educacional, mas de dispositivos intencionais dos quais os pareceres descritivos fazem parte.
Penso a respeito da positividade dos pareceres utilizadas pela escola para capturar a menina, mostrando os diferentes caminhos que ela deve percorrer com sua família para que seus comportamentos sejam aceitos. Nada escapa aos olhares vigilantes da professora, que minuciosamente descreve as atitudes da menina, o seu relacionamento com os colegas, o desenvolvimento de sua aprendizagem nas diferentes áreas do conhecimento e as suas dificuldades que devem ser superadas para que se consiga extrair o máximo de suas potencialidades da forma mais econômica e eficiente possível. Conforme Bujes (2002) a partir da vigilância produzida pela observação constante, as crianças se tornam objeto de controle, sendo conhecidos os seus modos de agir em suas preferências.
A escola desta forma cumpre o seu papel de exame interrupto, que em todo o seu cumprimento do ensino, operacionaliza uma comparação perpétua que permite medir e sancionar. A ação do exame na escola permite a passagem de conhecimentos aos alunos e a produção de saberes sobre o que cada um pode oferecer ao docente.
O excerto do parecer em que a professora enfatiza o uso do bloco como instrumento documentário do comportamento da menina, ilustra a característica individualizante deste operador disciplinar. A professora enfatiza em seu parecer “solicito também a leitura do bloco de D.odiariamente, pois registro sempre o comportamento dela na aula e essa é uma boa estratégia para família saber quando é o momento de fazer uma visita na escola”.
Kohan (2003), afirma que para cumprir a sua tarefa, a professora necessita conhecer detalhadamente os alunos, através do diagnóstico de suas emoções, capacidades e inteligências. Tornando-se elemento fundamental o conhecimento da história familiar das crianças com as quais trabalha, através de entrevistas para que nada escape ao seu controle. O excerto do parecer que segue, evidencia a preocupação da professora em estabelecer contato com a família:
A D.o preocupou-me muito no início do ano, pois era muito desmotivada com as atividades que propunha, conversei com a mãe e mesmo assim não surtiu efeito, então revi minhas aulas e também não obtive êxito. Procurei estabelecer e fortalecer nosso vínculo e dessa forma começamos a nos entender.
Se busca na história das famílias a essência da criança, uma verdade que dê conta da forma como ela se apresenta, que sirva de respaldo para suas ações ou para enquandrar em padrões de normalidade/anormalidade. Desta forma a professora passa a ganhar a confiança da criança, ouvindo seus anseios, angústias, desejos, mostrando que sem sacrifício se torna impossível desfrutar de uma vida justa e feliz.
O término da leitura do parecer descritivo de D.o permite afirmar que ela é uma menina “superpoderosa”. Mal humorada com a professora, agressiva com os colegas, bagunçada e ainda extrovertida em algumas situações. Estes olhares que descrevem a menina não são apenas escolares, mas conforme Corazza (2002) estão comprometidos com determinadas relações de poder-saber e implicados em certas políticas de identidade. Olhares que se cruzam na esfera escolar, mas que não se configuram como um privilégio que a professora tem sobre as crianças, pois eles interseccionam-se com os olhares da equipe diretiva, com a mantenedora, com assessoria pedagógica que presta orientação a escola infantil. Estes cruzamentos são visibilizados em uma rede de poder-saber onde emergem conhecimentos sobre as crianças.
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