|
Página 4 de 4
Uma produção de saberes é realizada pela instituição a partir da vigilância do comportamento da menina. Todos sabem que D.o não esta correspondendo às expectativas escolares e para isso é preciso (re)ativar a aliança com a família, mudar os rumos das aulas, incentivar os “bons” comportamentos da menina, mas acima de tudo enfocar as condutas que devem ser evitadas. Ao mesmo tempo em que o discurso escolar faz a captura de D.o, descrevendo-a como temperamental, agressiva, bagunçada com seus materiais, existe a tentativa de um enquadramento, pois nada pode escapar ao processo de exame.
A leitura do parecer permite identificar uma representação dessa criança, que tem um comportamento “temperamental”. Conforme as palavras da professora:
Ela é uma menina temperamental, às vezes fica mal humorada e nem conversa com ninguém, passa a manhã na sala de aula como se não houvesse outras pessoas ao seu redor. Em outros momentos chega a ser alegre na escola, mas não consegue ficar quieta um minuto.
A descrição da menina enquanto aluna da educação infantil, corresponde ao que Corazza (2002) aponta como sendo o fundamento da pedagogia moderna, ou seja, a necessidade de conhecer através do esquadrinhamento, categorização, classificação e produção de uma representação que tenta fixar identidades de um infantil-escolar. Existe a produção da essência de um infantil-escolar, que é posicionado como um sujeito universal e genérico, dotado de qualidades que a escola julga serem imprescindíveis para o desenvolvimento do futuro/a cidadão/ã.
Os registros do parecer demonstram visivelmente a produção do poder disciplinar, que exercita o corpo infantil desenvolvendo novas habilidades. A professora enfatiza que: “quando D.o chegou na escola não escrevia o nome e era muito bagunçada. No final do quarto mês de aula começou a pegar o lápis e a escrever o nome de forma correta”. Existe uma produtividade neste exercício do poder disciplinar sobre o corpo infantil. Ao chegar à escola não sabia pegar o lápis, através das intervenções da professora a menina foi sendo exercitada para que conseguisse utilizar o material escolar.
Desta forma, o corpo da menina torna-se foco de preocupação da professora em seus registros, pois “D.o cai da cadeira, tropeça, derruba colegas sem querer, além de com freqüência perder o tênis na fila “. As afirmações da professora permitem pensar no caráter social de construção do corpo. Um corpo narrado pelas palavras da professora, marcado pelas experiências vivenciadas nos diferentes espaços por onde circula. Corpo que conforme Goellner (2003,p.28) “é uma construção sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais, étnicos, etc.”. Marcas que se constituem através do que é narrado sobre ele, ou seja, o que vai sendo construído pela linguagem. Linguagem que se materializa na escrita do parecer ao ser afirmado que a desorganização em sala de aula com seus pertences ocorram devido à dificuldade da aluna trabalhar com seu próprio corpo. Neste sentido, Goellner (2003), assegura que a linguagem tem o poder de nomear, classificar, definindo normalidades e anormalidades.
Afinal quem é essa menina? A leitura permitiu conhecer a vida escolar de D.o a partir do olhar da instituição. Poderiam ser lançadas outras palavras, dependendo do contexto em que estivesse inserida essa aluna-criança. O interessante é apontar como os pareceres enquanto dispositivos de penalização normativa, incidem no engendramento de determinados resultados, evidenciando o modo como a linguagem se constituí em operação disciplinar ao descrever os rituais de poder que são investidos nos corpos infantis.
DIFERENTES HISTÓRIAS: MUITOS CAMINHOS
No contexto da contemporaneidade (poderíamos também dizer pós-modernidade) coexistem múltiplas infâncias, descentradas, enigmáticas, inscritas culturalmente a partir de artefatos que procuram enunciá-las como o “outro” que deve ser conhecido e fixado. Desta forma torna-se fundamental desconstruir as metanarrativas sobre infância que fazem parte das formas como as crianças são descritas nos pareceres descritivos, dando visibilidade a várias formas de compreender a infância como construção social. É preciso pensar que as formas de existência das crianças são variadas, por isso suas infâncias devem ser contextualizadas em relação ao tempo, local e cultura, tendo como variantes as categorias de etnia, gênero e classe, entre outras.
Desta forma, podemos pensar que não existe algo como a infância ou a criança (DAHLBERG, 2003), um ser em estado essencial esperando para ser descrito, mas muitas crianças e muitas infâncias, (re)elaboradas em um conjunto ativamente negociado de relações. Relações que não se esgotam nas documentações escolares, mas que podem podem ser redimensionadas buscando compreender como as formas como tem sido narradas as crianças e as suas experiências enquanto indivíduos que partilham espaços no contexto da escola infantil.
Sendo assim, torna-se necessário incidirmos olhares, discutirmos saídas inventadas, problematizarmos tensionamentos que viabilizem as trocas que estabelecemos com o “outro”, desvendando esses ciborgues, os quais ainda ousamos chamar de crianças, através de suas diferentes histórias e dos muitos caminhos pelos quais ainda podemos trilhar.
___________________________________
* Rodrigo Saballa de Carvalho é pedagogo, orientador pedagógico educacional no colégio Fundação Bradesco-Gravataí, mestrando do PPGEdu/UFRGS, na Linha Estudos Culturais em Educação, tendo defendido sua proposta de dissertação intitulada: Infância de pronta-entrega: tornando-se aluno/a da Educação Infantil (orientação da Profa. Dra. Iole Maria Faviero Trindade).
REFERÊNCIAS:
BUJES, Maria Isabel Edelweiss. Infâncias e Maquinarias. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
CORAZZA, Sandra Mara. O que quer um currículo? : pesquisas pós-críticas em educação: Petrópolis RJ: vozes, 2001.
DAHLBERG, Gunilla, MOSS, Peter; PENCE, Allan. Qualidade na Educação da Primeira Infância: perspectivas pós-modernas. Tradução de Magda França Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2003.
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Tradução de Roberto Cabral de Melo Machado e Eduardo Jardim Morais. Rio de Janeiro: NAU editora, 2003.
GOELLNER, Silvana. A produção cultural do corpo. In: LOURO, Guacira Lopes (orgs.) Corpo, Gênero e Sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis, RJ:Vozes,2003.
KOHAN, Walter Omar. Infância. Entre educação e filosofia – Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
LUFT, Celso Pedro. Dicionário da Língua Portuguesa. Editores Associados, 1999.
<< Início < Anterior 1 2 3 4 Próximo > Fim >> |