|
Página 2 de 6
VISÕES SIMPLISTAS E DE SENSO COMUM
O senso comum coloca como oposição emoção e razão, subjetividade e objetividade, afetividade e cognição... e assim dicotomiza arte e ciência. A primeira apenas como forma de expressão, de lazer, de contágio, de contemplação, como objeto de consumo e, no currículo escolar, como suporte às demais disciplinas, e, a segunda como única capaz de produzir conhecimento.
É preciso refletir sobre estas dicotomias, perceber que um equilíbrio entre elas é possível e assim superar visões do tipo: Arte é o belo, Arte é contágio, Arte é livre expressão, Arte é interdisciplinaridade, Arte é objeto de consumo. Discutindo estas concepções, busco superá-las e assim chegar a uma que considere a Arte como via de conhecimento, carregada de especificidades e conteúdos próprios e capaz de resgatar a totalidade do ser humano.
Arte é o belo
Uma primeira visão romântica e renascentista é a que associa a arte ao belo. Para a maioria das pessoas a arte está ligada ao belo e quando perguntamos o que se entende por essa área, os grandes mestres da Renascença (Leonardo da Vinci, Rafael, Michelangelo) são usados como referência.
Segundo esta concepção, que ainda é de muitos professores, as obras de arte da Renascença são vistas como belezas a serem contempladas e reproduzidas pelos alunos. E ainda, a criação artística deve seguir rígidos padrões associados ao ideal de beleza, que em verdade é histórico e muda de sociedade para sociedade e ao longo do tempo. E mais, o que é belo para o professor pode não ser para o aluno, e desta forma o professor ignora as culturas jovens por querer impor a sua, em geral, a dominante.
Arte é contágio
Arte também não é o simples contágio, emoção, como defende Tolstói. Segundo ele na Teoria do Contágio, a arte nos contagia com determinados sentimentos. Para Tolstói, a arte só se efetivaria se o sentimento, que constitui o objeto da arte e que passa por uma avaliação moral – bom ou mau – contagiasse o leitor, o espectador, o ouvinte.
Segundo Vigotski, à medida que Tolstói tenta ser coerente com suas concepções acaba caindo em contradição. Isso ocorre quando ele considera como arte o canto de um coro feminino no casamento de sua filha e como tentativa fracassada de arte, sem sentimento definido, a sonata de Beethoven. Com esta comparação percebemos a que conclusões absurdas chega um autor quando toma por base uma concepção de arte que parte exclusivamente do contágio.
Se na minha prática de sala de aula eu tivesse como fundamentação esta teoria, não acrescentaria nada ao universo dos alunos, porque com certeza será muito mais contagiante para eles um rap ou um cantor em destaque na mídia do que Beethoven, Bach, Mozart. Além do mais eu estaria contribuindo para que sofressem mais uma exclusão, a exclusão cultural. Além das tantas que já sofrem!
Portanto, o simples contágio é insuficiente para entender o que é arte.
Em realidade, como seria desolador o problema da arte na vida se ela não tivesse outro fim senão o de contagiar muitas pessoas com os sentimentos de uma. Seu significado e seu papel seriam extremamente insignificantes, porque em arte acabaríamos sem ter qualquer outra saída desses limites do sentimento único, exceto a ampliação quantitativa desse sentimento. (VIGOSTKI, 2001, p.307).
Neste caso a arte lembraria o milagre dos pães e dos peixes, em que o milagre é apenas quantitativo, pois pães e peixes cada um dos que presenciaram comia em sua casa.
Podemos comparar a arte a um outro milagre, o da transformação da água em vinho, já que o sentido vital da arte implica transformações: a arte recolhe da vida o material, mas produz algo que está acima desse material; como disse um pensador: “a arte está para a vida como o vinho para a uva.” (VIGOTSKI, p.307)
A arte transforma quem faz, quem vê e a própria matéria usada. Sendo assim, arte vai além do contágio, é uma prática, é um fazer humano, que como prática, tem uma finalidade, um objetivo, uma intenção.
|