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Arte é objeto de consumo
O homem relaciona-se com a arte segundo as influências do seu tempo e no mundo contemporâneo em que vivemos tal relação acontece quando ele tem ou deseja ter uma gravura, um disco, um livro muito bem ilustrado, quando deseja ir a uma exposição, assistir a uma peça de teatro, quando adquiri um quadro para combinar com a parede da sua casa, quando compra uma escultura porque o tamanho dela será perfeito para colocar no corredor... numa relação puramente consumista, e, muitas vezes elitista.
Sendo considerada como objeto de consumo, como fica a situação dos economicamente desfavorecidos frente à arte? Neste aspecto, a arte passa a ser elitizada, já que os de um nível econômico baixo, não têm acesso a ela. A arte passa a ser mais uma forma de exclusão! Exclusão social e cultural.
O professor deve apropriar-se da cultura de seus alunos, vista muitas vezes como inferior, para poder ampliá-la e fazer com que eles se apropriem da arte de uma forma significativa. Não como um objeto a ser comprado, pelo simples status que ele pode proporcionar, mas como uma área de conhecimento capaz de prepará-los para fruírem a produção dos artistas, refletirem sobre elas e produzirem sua obra.
ARTE É CONSTRUIR, É CONHECER, É EXPRIMIR
Para superar visão de senso comum e os riscos de reduzir a arte a apenas um aspecto, podemos considerar a contribuição de Luigi Pareyson e refletir sobre a arte como construção, como conhecimento e como expressão.
Didaticamente separadas, mas que acontecem de forma imbricada, num encontro entre objetividade e subjetividade, consciente e inconsciente, razão e emoção.
Um trabalho artístico passa pela mente, pelo coração, pelos olhos, pela garganta, pelas mãos; que pensa, recorda, sente, observa, escuta, fala, toca e experimenta. Um processo que desenvolve um campo de conhecimento tão importante quanto inatingíveis pela linguagem lógica, científica, tão presentes nos currículos escolares, que ainda são embasados por uma visão positivista, com ênfase no aspecto técnico, importando-se apenas com a mera transmissão de conhecimentos prontos e acabados.
A partir das descontruções de concepções sobre a arte feitas até aqui, pretendo agora, aproximar-me de uma concepção de arte mais completa, do que ela pode ser enquanto conhecimento, construção e expressão.
Arte como construção
Arte é construção porque através dela se constrói algo, se transforma a matéria oferecida pela natureza ou pela cultura. Essa transformação se dá através do trabalho, de uma techné, que, segundo os gregos, é um modo exato de perfazer uma tarefa.
Segundo esta concepção, tanto os artistas quanto os artesãos tem um processo de produção que envolve uma techné e também possuem um processo de criação que envolve uma poiesis. Em outras palavras: a arte tem tanto um caráter técnico, racional; quanto outro mais subjetivo, ligado ao prazer estético, de quem faz ou de quem frui arte. Com essas palavras verifica-se a limitação da concepção que considera a arte apenas como livre expressão.
Um processo de criação artístico é uma construção que tem dois grandes e fortes alicerces: a imaginação e o trabalho.
Desde a Antiguidade houve uma preocupação com a técnica. Podemos perceber isso na Renascença italiana, com preocupações racionais ligadas à perspectiva e à proporcionalidade. Esse caráter sistematizado permanece até os dias de hoje, como um abc do processo de aprendizagem da pintura.
A arte do século XX relativiza essas “leis” estéticas, mas como os padrões da Renascença permaneceram resistentes por vários séculos ainda estão presentes no discurso de muitas pessoas, aquelas que acreditam na primeira concepção de arte apresentada neste artigo, “Arte é o belo”.
Com esta reflexão podemos concluir que arte envolve técnica, mas é importante uma outra reflexão: o grau de subjetividade presente no uso da técnica. “Até onde chegam as técnicas aprendidas e onde começa a técnica pessoal, a forma viva?”
A práxis estética envolve potências lúdicas, críticas e existenciais, envolve também o modo único de ser de cada pessoa. Daí a importância de se oferecer aos alunos um contato cada vez mais íntimo com a arte, e isso implica incluir no processo de ensino e aprendizagem algumas questões técnicas, alguns procedimentos artísticos para que a partir deles o aluno crie a sua forma pessoal, única e reveladora de quem ele é.
Arte como conhecimento
Arte é conhecimento porque a própria significação da palavra denota tal concepção. O termo alemão kunst, o inglês know, o latim cognosco e o grego gignosco partilham da raiz gno, que indica um saber teórico ou prático, portanto um conhecimento. E mais, ars, palavra latina e raiz do português arte, presente também no verbo articular: ação de fazer junturas entre as partes e o todo.
Mas, como entender este saber?
Desde as mais antigas tradições teóricas, este saber esteve ligado à representação, ou como mímesis, imitação de traços e gestos humanos; ou como reprodução seletiva, do que parece ser mais característico em uma pessoa ou coisa, mas sempre preocupado com o realismo.
Alguns nomes da historiografia moderna, entre eles PANOFSKY, negam tais teorias que reduzem a arte à esfera da pura imitação, pois desde a pré-história os homens usavam a arte de forma diferente, usavam-na para registrar a existência humana.
O ver do artista é um ver afetado pelo pensar; um ver que analisa as formas e cores da natureza e as recompõe com uma nova inteligência do real. Assim, o ver-pensar é um combinar, um repensar, um transformar os dados da experiência sensível: “Arte: percepção aguda das estruturas, mas que não dispensa o calor das sensações.” (BOSI, 2003, p.41)
A partir desta frase podemos diferenciar percepção estética e percepção científica. A última apenas manipula as coisas, enquanto que a primeira é causadora de uma experiência singular e poderosa, com presença ativa e pensante do sujeito no mundo. O artista vive o seu tempo, com as visões de mundo, o espírito da época, ideologias de classe e de grupo..., com universos de valores que se fazem presentes na hora da criação artística e que são vividos com todo o seu empenho intelectual e ético, revelando a idéia de que arte é conhecimento.
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