|
Página 2 de 5
O saber escolar pode ter uma importância fundamental para a formação dos alunos e, conseqüentemente, para a constituição da sociedade, mas é preciso colocá-lo dentro da realidade social, mostrar que esse saber é uma realização humana e social. Só assim a criança terá uma melhor compreensão e uma ação mais conseqüente sobre o mundo.
“O saber só é cultural na medida em que aparece para a criança como criação humana e social. Isso quer dizer que o saber não poderia ser ensinado sem que, ao mesmo tempo, se ressaltassem sua significação humana e social e seu modo de elaboração humano e social” (Charlot, 1979, p. 280).
A tarefa da escola, porém, não é das mais fáceis na atual conjuntura. Esse quadro suscita a seguinte questão: Como essa instituição está se inserindo nessa sociedade plena de contradições?
Vivemos diversas “temporalidades” circunscritas ao mesmo espaço. Ao mesmo tempo em que há recantos de grandes cidades onde ocorre um congestionamento de tráfego aéreo de helicóptero para o transporte de executivos, por outro lado, temos rincões, dessa mesma cidade, onde o indivíduo mal consegue se abrigar e se alimentar satisfatoriamente. Não são exigências fáceis e a escola e o professor têm que lidar a todo instante com essas e outras questões contemporâneas.
Além disso, a rapidez propiciada pela tecnologia, a quantidade enorme de informações que circula diariamente, bem ou mal, compõe o universo dos jovens que freqüentam as escolas. Diante disso, como a escola e o professor conseguem propiciar elementos para que os alunos façam relações conjunturais e estruturais? Como enfrentar o “presenteísmo” latente na formação desses jovens?
“Com a globalização da economia, aumentaram-se as responsabilidades da escola e do docente”- (Naracato, Varani e Carvalho, 2000, p. 96).
Há diversas cobranças em relação à aprendizagem dos alunos. O discurso corrente é de que o aluno precisa ser flexível para atender, por exemplo, às constantes mudanças do mercado de trabalho. Mas será que objetivos como esses precisam ser a “viga-mestra” para o processo de ensino-aprendizagem?
Mesmo concordando que: “nem cabe á educação um papel transformador revolucionário, nem pode a pedagogia se erigir em uma posição de crítica social” - (Schmied-Kowarzik, 1983, p.132), é preciso reconhecer ter a escola um papel importante na compreensão do cotidiano. O conhecimento escolar pode ajudar os alunos a ampliar as suas “ferramentas” de atuação sobre suas vidas e, conseqüentemente, sobre a sociedade. Por um lado, a instituição escolar não pode desprezar o conhecimento que o aluno traz, por outro, não pode ficar restrito a ele.
A escola tem um papel fundamental na construção do conhecimento dos jovens. O seu conhecimento tem especificidades. Não é mera transposição da produção científica e nem elaboração do senso comum. Provavelmente, o aluno não terá oportunidade de se apropriar desse conhecimento em outro espaço. A convivência, as interações e as “apreensões” que se desenvolvem ali serão fundamentais para a sua construção humana.
Discutindo a prática docente
Como já mencionei anteriormente, a escola e o professor não podem tudo, mas ambos têm tarefas importantes e difíceis de realizar num mundo cheio de contradições e tomado pela rapidez dos avanços tecnológicos.
A prática docente, por sua vez, tem uma dimensão política. A atividade de ensinar não se restringe à sala de aula. Há um compromisso social do professor que transcende esse espaço escolar. O que se faz diante dos alunos e colegas de trabalho tem uma repercussão que vai além. De uma forma ou de outra, em maior ou menor escala, o professor está contribuindo para a formação da sociedade que temos. Daí a necessidade de se ter um compromisso social e profissional.
Não é possível se refugiar no comodismo a fim de garantir uma pretensa “imparcialidade”. Há conseqüências decorrentes das nossas escolhas. Não é possível negar as responsabilidades que se tem em relação aos alunos e a sociedade em geral. Em nossas ações não cabe o discurso da neutralidade.
Quando o docente ensina um conteúdo, elabora uma estratégia ou avalia o seu trabalho, está sempre investindo numa dimensão formativa. Segundo Zabala: “(...) educar quer dizer formar cidadãos e cidadãs, que não estão parcelados em compartimentos estanques, em capacidades isoladas (...)” (1998, p.28/9).
Os alunos têm necessidade de adquirir habilidades e competências para enfrentar o dia-a-dia. Não basta a preocupação com apropriações de conteúdos restritos. O ser humano só se desenvolve em sua plenitude quando articula bem as suas múltiplas potencialidades. E o conhecimento escolar é fundamental nesse processo.
O ato educativo, portanto, não é um ato isolado ou neutro. Pode-se optar por nã
o ter filiações partidárias, mas o comportamento pessoal e profissional de todo professor possui, sim, uma dimensão política. Recorro a Libâneo para corroborar essa idéia de que: “(...) a prática educativa, e especialmente os objetivos e conteúdos do ensino e o trabalho docente, estão determinados por fins e exigências sociais, políticas e ideológicas” - (1994, p.18).
Assim, reafirmo que o professor precisa ter compromisso e responsabilidade social. O seu trabalho não se restringe à sala de aula. A sua postura perante os alunos, a forma como trabalha os conteúdos de sua disciplina e as interações que articula na sociedade provocam interferências maiores ou menores. A escola e o professor, bem ou mal, estão ajudando a preparar os alunos para enfrentar o cotidiano. Pode-se dizer, então, que não há neutralidade em nenhuma de suas atitudes, somos parte fundamental nessa composição coletiva. Novamente, retomo Libâneo para afirmar que: “(...) No trabalho docente, sendo manifestação da prática educativa, estão presentes interesses de toda ordem – sociais, políticos, econômicos, culturais – que precisam ser compreendidos pelos professores” - (Libâneo, 1994, p. 21).
Porém, é bom lembrar que essas relações sociais são passíveis de transformação. Ou seja, os indivíduos podem transformar a sua realidade. O homem é produto e, ao mesmo tempo, produtor de sua história.
O homem é um ser inacabado, sendo assim, não é possível estabelecer condutas naturais a priori, pode-se falar em condição humana e não em características universais da natureza humana. Talvez aí resida uma da “chaves” para se propor uma mudança consistente nas propostas pedagógicas.
Não se pode falar em mudanças sem se discutir a visão de homem intrínseca às propostas educacionais. Vem daí a necessidade de considerar o homem com ser social e determinado historicamente. Nesse sentido, falar em natureza humana é um escapismo.
Faz-se necessário uma ressalva: não há nesse espaço a pretensão de responsabilizar os professores por todas as mazelas do ensino e da conseqüente aprendizagem dos estudantes. As responsabilidades existem e não é possível omiti-las. Mas o Estado e outros agentes sociais nem sempre cumprem as suas funções previstas no “contrato social”. A questão não pode ser individualizada, a análise deve ser politicamente contextualizada.
|