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O Conhecimento Escolar no Ensino Básico: retomando algumas questões Imprimir E-mail
Por José Martins Ribeiro   
08 de março de 2006


Sendo assim, o conteúdo não pode se limitar ao conhecimento imediato e restrito da “matéria”. Não basta a preocupação com as “especificidades” de cada disciplina. O “específico” deve levar os alunos a adquirir conhecimentos que os ajudem a fazer ligações com outras disciplinas, com a sua vida e com o mundo. Se o conteúdo trabalhado não conseguir provocar interações nos alunos, provavelmente ele será rapidamente descartado, não estará cumprindo uma função educativa.

As interações vividas dentro da educação escolar podem ser fundamentais para a formação dos jovens. Os adultos podem ser modelos essenciais para a educação desses jovens, talvez esse seja um dos papéis centrais da educação.

As concepções pedagógicas

Depois de sistematizar reflexões relativas à escola e à prática docente, passo agora a propor algumas discussões sobre a pedagogia. Primeiro, é preciso lembrar que se trata de uma área permeável a diversas influências. A todo instante surgem “novas soluções” para os problemas de ensino, especialmente nas área pública. A cada nova gestão as Secretarias de Educação lançam reformas que não conseguem modificar substancialmente a qualidade do ensino. Para constatar isso basta observar os próprios índices oficiais do governo. Por exemplo, o desempenho dos alunos nas avaliações centrais como SAEB (Sistema de Avaliação do Ensino Básico), SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) e outros mais.

A transposição de modelos de reformas vindos de fora e feitos sem uma devida crítica só pode redundar em fracasso. Aliás, isso não é novidade. Há tempos se discutem as ingerências de planos externos. O difícil é aceitar a insistência e a persistência desses modelos em diversas Secretarias de Educação e nos mais diferentes planos de governo.

Nesses programas de reformas não há uma articulação entre os investimentos. Os diversos projetos “impostos” ao sistema educacional só contribuem para confundir e dificultar as iniciativas que surgem nas escolas. A busca pelo cumprimento de “tarefas” faz com que a equipe escolar “se esqueça” de realizar suas funções básicas para garantir uma aprendizagem significativa para os seus alunos.

Talvez seja necessário refletir sobre a trajetória do pensamento pedagógico. Analisando tanto a pedagogia tradicional quanto a nova, Charlot (1979) chama a atenção para o fato de que ambas trabalham com a concepção de homem e de cultura a partir da idéia de natureza humana:

“A pedagogia tradicional define o homem como o Sábio, isto é, como aquele que atualizou em si a natureza humana no que ela tem de mais nobre. A pedagogia nova visa ao homem que, no seio da sociedade, soube conservar sua bondade, sua espontaneidade e sua plasticidade naturais.”- (1979, p. 264).

Como já foi mencionado anteriormente, não se pode perder de vista que o homem é um ser social e de que a nossa sociedade está dividida em classes sociais. Desconsiderar esses dados é negar a trajetória histórica do homem.

Além disso, não se pode tentar a simples “ideologização” da pedagogia com o fim de recuperar uma “verdadeira essência” intrínseca à pedagogia, ou seja, sua pseudo-função transformadora do ser humano e do social.

Nesse sentido, Bernard Charlot (1979) aponta uma saída que, segundo o autor, estaria na compreensão do “homem como ser social”. Ele chama a atenção para a necessidade de se refletir sobre algumas questões cruciais como: qual é o projeto de homem e de sociedade que se quer?

O autor trabalha com a idéia de que para se sair de uma pedagogia ideológica seria necessário compreender o homem como ser social. O homem só é determinado socialmente e não por “condicionantes da natureza humana”.

Acredito que a falta de um projeto mais abrangente, que leve em consideração a definição de homem como ser social e historicamente determinado, seja um dos fatores que contribuem para essa “mutação” constante que persiste nas propostas pedagógicas. Aliás, talvez um dos pontos cruciais dessa questão esteja nos interesses “da política menor”. Aquela que traz a proposta de reformas superficiais, para evitar as questões de fundo.

Deve-se reconhecer, por outro lado, que não se trata de uma tarefa fácil a definição de um projeto de homem e de sociedade. Ainda mais num momento de crise. Afinal, desde o final do século XX fala-se em crise de paradigmas, principalmente nas áreas de conhecimento afeitas às ciências humanas. Nesse período, Fukuyama chegou a falar em “fim da história”. E muitos embarcaram nesse discurso fatalista.

Porém, não é preciso falar muito para verificar que essa “profecia” não ocorreu. A tão decantada globalização associada ao neoliberalismo, não conseguiu cumprir as promessas de redenção dos males sociais que persistem em todos os cantos do planeta. Aqui e ali se sucedem os conflitos étnicos, nacionais e de outros interesses.
Se a educação escolar não pode empunhar a bandeira da transformação, por ter uma raiz “conservadora”, não se pode negar, por outro lado, que é um dos instrumentos para a composição social, para a busca da superação das limitações do cotidiano. Só isso já constitui um papel importante à educação escolar.

Além disso, não se pode esquecer que o homem não é refém de determinismos. Não é possível defini-lo a priori. É um ser que vai se construindo e se constituindo a cada dia, a todo instante, no seu fazer. As suas ações carregam um sentido coletivo. Ele é produto e, ao mesmo tempo, produtor da sua história e da humanidade.

Uma das questões de fundo que ainda permanece, é que só alguns se apropriam dessas realizações. Ou seja, o produto do trabalho humano ainda está a serviço de poucos. Todos os avanços técnicos e científicos estão “sublocados”. O trabalho, como está posto, não propicia a realização: ao contrario, escraviza o homem.

Sem considerar essas questões de cunho antropológico, como falar em projetos educacionais? Como falar em reformas educacionais? A questão não é só mudar métodos, inovar técnicas, mexer na avaliação, propor um “novo” currículo, e outras mudanças aparentes. Afinal, qual é o projeto de sociedade que se pretende? É uma das perguntas simples que permanecem sem uma resposta satisfatória. Sem aprofundar essas questões não se pode avançar nas discussões pedagógicas e tentar propor modificações no sistema educacional.



 

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