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Eleições: Serra no governo do estado e Alckmin na presidência: ganha São Paulo, perde o Brasil. Imprimir E-mail
Por Francisco Valente   
22 de abril de 2006
ImageO PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira (sic) deu mais um passo para se livrar da pecha de “esquerda envergonhada”: numa guinada radical para a direita, o rolo compressor municipalista impôs aos “donos” do Partido a candidatura de Geraldo Alckmin à presidência da república, preterindo José Serra, cujo “prêmio de consolação” será disputar o governo do Estado.
Geraldo Alckimin luta para compor alianças com as demais expressões políticas do pensamento conservador no Brasil (PFL e a maior parte do PMDB) e, assim, alavancar seu nome junto ao eleitorado.

Nesses termos, ganhará, e muito, a população do Estado de São Paulo (as pesquisas de 5 de abril sinalizam de 63% a 67% de votos favoráveis a Serra, garantindo uma vitória já no primeiro turno) e, certamente, caso haja vitória de Alckmin, o Brasil perderá: trocará um presidente medíocre, marcado por uma carreira política forjada na esperteza do sindicalismo, por um um político tíbio, de resultados medíocres quanto à sua gestão no governo de São Paulo e, o que é pior, também refém do mercado financeiro e seus representantes cativos no Banco Central e no Ministério da Fazenda.

Geraldo Alckmin, apesar da fama de bom moço, conseguiu em seu mandato esticado obstruir, sabe-se lá com que expedientes, a criação de 64 CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), na Assembléia Legislativa, para investigar sua gestão. É alvo, neste momento, de inquéritos do Ministério Público para explicar a gratidão a seu médico acupunturista, cuja revista (Ch'an Tao) de divulgação de medicinas alternativas recebeu generosas verbas publicitárias de empresas do governo, evidentemente “dentro da lei”. Também “dentro da Lei” foram os pagamentos de “aulas de relaxamento e meditação” impingidas ao professorado estadual de São Paulo, sem licitação (nótória especialização?) pela Secretaria de Educação, ao custo aproximado de R$1.000.000,00 e ministradas pelo mesmo acupunturista. De quebra, o milagroso médico é sócio de um dos filhos do ex-governador numa empresa de comercialização de produtos naturais, como chás, ervas medicinais, etc..

Quanto a José Serra, é pedante, egocentrado, mal-humorado, reservado, arrogante e imperial - ninguém nega. Todavia, é também bem formado, experiente na área econômica e na área social, fez sua carreira política junto ao movimento estudantíl no início dos anos 60, foi perseguido e exilado. E tem um projeto próprio, não há dúvida, para o País. É o único nome, hoje em dia, no Brasil, em condições de enfrentar o mercado e seus feitores e tentar diminuir a hegemonia da mentalidade patrimonialista (coronelismo nordestino) e rentista (Bancos, etc. ) que tradicionalmente se vale dos políticos para garantir-nos a desonrosa posição de campeões da desigualdade econômica e social. É o único político brasileiro em condições de mudar o perfil colonial que é o peso histórico que o povo brasileiro carrega às custas de suor e sangue.

Serra administrará o Estado de São Paulo tranquila e brilhantemente, ainda mais com o dinheiro em caixa deixado pela dupla Covas/Alckmin. É mister salientar, contudo que isso é fruto do maior arrocho financeiro vivido pelo Estado desde os tempos de Carvalho Pinto e que reduziu o funcionalismo público quase à mendicância. O professorado é testemunha disso – a má qualidade do ensino das escolas, uma das conseqüências. Os poucos que se beneficiaram de atenção do governo do Estado quanto a salários, nos últimos anos, foram alvo de antiga tática malufista de prestigiar, remunerando bem, algumas categorias “estratégicas”, como o oficialato da PM, delegados de polícia e pessoal em cargos de comissão.

Quanto ao exercício da presidência, o candidato do PSDB Geraldo Alckmin, se chegar lá, não terá interesse (nem preparo, pois esperteza na política é uma coisa, vocação para estadista é outra) para fazer o país retomar o caminho do desenvolvimento social.

Sob o manto do “ bom-mocismo”, passeará de mãos dadas com os “donos “ do mercado, acolherá no Banco Central e na Fazenda alguns de seus ex, atuais ou futuros empregados, arrochará ainda mais os trabalhadores e não tocará, de modo nenhum, numa reforma fiscal, para evitar prováveis “conflitos de interesse”. De tendência neo-liberal, conservador ungido pela Opus Dei, abrirá as porteiras do Brasil para desfrute dos Estados Unidos através da ALCA – Aliança para o Livre Comércio das Américas. Parafraseando o escritor siciliano Giuseppe di Lampedusa (Il gattopardo, 1961) haverá mudanças sim, mas não expressivas, para que as coisas permaneçam do mesmo jeito.

Caso Alckmin perca as eleições, o que é improvável, já que contará com o auxílio de um autêntico “puxador de votos” que é José Serra, ficaremos com o que já está aí: um sindicalista malformado, envolvido em maracutaias (expressão do próprio), refém da própria ignorância e de sua (agora) escandalosa biografia.

Francisco Valente é editor de conteúdos do site www.conteudoescola.com.br .
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