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Página 3 de 10 A educação deve se dedicar, por conseguinte, à identificação da origem de erros, ilusões e cegueiras. Os
erros podem ser mentais - pois nenhum dispositivo cerebral permite
distinguir a alucinação da percepção, o sonho da vigília, o imaginário
do real, o subjetivo do objetivo. A própria memória é fonte de erros
inúmeros. Nossa mente tende, inconscientemente, a selecionar as
lembranças convenientes e eliminar as desagradáveis. Há também falsas
lembranças, fruto de pura ilusão. Os
erros podem ser intelectuais - pois os sistemas de idéias (teorias,
doutrinas, ideologias) não apenas estão sujeitas ao erro, como protegem
os erros possivelmente contidos em seu contexto. Os
erros da razão: a racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a
ilusão. Mas traz em seu seio uma possibilidade de erro e de ilusão
quando se perverte, se transforma em racionalização. A racionalização,
nutrindo-se das mesmas fontes da racionalidade, constitui grande fonte
de erros e ilusões. A racionalidade não é uma qualidade de que são
dotadas algumas pessoas - técnicos e cientistas - e outras não. A
racionalidade também não é monopólio ou uma qualidade da civilização
ocidental. Mesmo sociedades arcaicas podem apresentar elementos de
racionalidade em seu funcionamento. Começamos a nos tornar
verdadeiramente racionais quando reconhecemos a racionalização até em
nossa racionalidade e reconhecemos os próprios mitos, entre os quais o
mito de nossa razão toda-poderosa e do progresso garantido. É necessário reconhecer, na educação do futuro, um princípio de incerteza racional:
pois a racionalidade corre risco constante, caso não mantenha vigilante
autocrítica quanto a cair na ilusão racionalizadora. E a verdadeira
racionalidade deve ser não apenas teórica e crítica, mas também
autocrítica. Os
erros paradigmáticos - os modelos explicativos - os paradigmas - também
são sujeitos a erros - de concepção e de interpretação de conceitos. O
paradigma cartesiano, por exemplo - mola mestra do desenvolvimento
científico e cultural do Ocidente - se fundamenta em contrastes
binários: sujeito/objeto, alma/corpo, espírito/matéria,
qualidade/quantidade, sentimento/razão, existência/essência,
certo/errado, bonito/feio, etc. - não encontram, no mundo de hoje, a
fundamentação que parecia possuir no início do século XX. O paradigma -
como o cartesiano - mostra alguma coisa e esconde outras - podendo,
portanto, elucidar e cegar, revelar e ocultar. É no seu seio que se
esconde o problema -chave do jogo da verdade e do erro.
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