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Página 6 de 10 A inteligência geral O desenvolvimento de aptidões gerais da mente permite melhor desenvolvimento das competências particulares ou especializadas. Quanto
mais poderosa é a inteligência geral, maior é sua faculdade para tratar
de problemas especiais. A compreensão de dados particulares também
necessita da ativação da inteligência geral, que opera e organiza a
mobilização dos conhecimentos de conjunto de cada caso particular. A
educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e
problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da
inteligência geral. Este uso total pede o livre exercício da
curiosidade, a faculdade mais expandida e a mais viva durante a
infância e a adolescência, que com freqüência a instrução extingue e
que, ao contrário, se trata de estimular, caso esteja adormecida,
despertar. A
educação do futuro, em sua missão de promover a inteligência geral dos
indivíduos, deve ao mesmo tempo utilizar os conhecimentos existentes,
superar as antinomias decorrentes do progresso nos conhecimentos
especializados e identificar a falsa racionalidade. A antinomia
- para Morin, nos dias atuais, os sistemas de ensino portam antinomias
- contradições - criando e alimentando disjunções entre as ciências e
as humanidades, assim como a separação das ciências em disciplinas
hiperespecializadas, fechadas em si mesmas. Os problemas fundamentais
da humanidade e os problemas globais estão ausentes das ciências
disciplinares; o enfraquecimento da percepção global conduz ao
enfraquecimento da responsabilidade (cada um passa a responder somente
por sua tarefa especializada), assim como ao enfraquecimento da
solidariedade (as pessoas não sentem mais os vínculos com seus
concidadãos). Os problemas essenciais Disjunção e especialização fechada
- hiper-especialização impede tanto a percepção do global (que ela
fragmenta em parcelas) quanto do essencial (que ela dissolve). Redução e disjunção
- o princípio da redução (limitar o conhecimento do todo ao
conhecimento de suas partes) leva naturalmente a restringir o complexo
ao simples. Aplica às complexidades vivas e humanas a lógica mecânica e
determinista da máquina artificial. Como nossa educação sempre nos
ensinou a separar, compartimentar, isolar, e não unir os conhecimentos,
o conjunto deles constitui um quebra-cabeças ininteligível. A
inteligência compartimentada, parcelada, mecanicista, reducionista,
enfim - disjuntiva - rompe o complexo do mundo em fragmentos disjuntos,
fraciona os problemas, separa o que está unido, torna unidimensional o
multidimensional. É uma inteligência míope que acaba por ser
normalmente cega. Reduz as possibilidades de julgamento corretivo ou da
visão a longo prazo. Assim, quanto mais a crise progride, mais progride
a incapacidade de pensar a crise; quanto mais os problemas se tornam
multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua
multidimensionalidade; quanto mais os problemas se tornam planetários,
mais eles se tornam impensáveis.
A falsa racionalidade -
ou seja, a racionalização abstrata, triunfa hoje em dia, por toda a
parte, na forma do pensamento tecnocrático - incapaz de compreender o
vivo e o humano aos quais se aplica, acreditando-se ser o único
racional. O século XX viveu sob o domínio da pseudo-racionalidade que
presumia ser a única racionalidade, mas atrofiou a compreensão, a
reflexão e a visa em longo prazo. Sua insuficiência para lidar com os
problemas mais graves constituiu um dos mais graves problemas para a
humanidade. Daí, o paradoxo: o século XX produziu avanços gigantescos
em todas as áreas do conhecimento científico, assim como no campo da
técnica. Ao mesmo tempo, produziu nova cegueira para os problemas
globais, fundamentais e complexos, gerando inúmeros erros e ilusões. {mospagbreak} III - Ensinar a condição humana O
ser humano é a um só tempo, físico, biológico, psíquico, cultural,
social, histórico. Esta unidade complexa na natureza humana é
totalmente desintegrada na educação por meio das disciplinas, tendo-se
tornado impossível aprender o que significa ser humano. É preciso
restaurá-la, de modo que cada um, onde quer que se encontre, tome
conhecimento e consciência, ao mesmo tempo, de sua identidade complexa
e de sua identidade comum a todos os outros humanos. Desse
modo, a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o
ensino. É possível, como base nas disciplinas atuais, reconhecer a
unidade e a complexidade humanas, reunindo e organizando conhecimentos
dispersos nas ciências da natureza, nas ciências humanas, na literatura
e na filosofia, pondo em evidência o elo indissolúvel entre a unidade e
a diversidade de tudo que é humano. Enraizamento/desenvolvimento do ser humano A
educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado
na condição humana. Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo
no universo, e não separa-lo dele. Todo o conhecimento deve
contextualizar seu objeto para ser pertinente; "quem somos?" é
inseparável de "onde estamos", "de onde viemos', para "para onde
vamos?". Interrogar nossa condição humana implica questionar nossa
posição no mundo. Para a educação do futuro, é necessário promover
grande remembramento (consolidação) dos conhecimentos oriundos das
ciências naturais, a fim de situar a condição humana no mundo, dos
conhecimentos derivados das ciências humanas para colocar em evidência
a multidimensionalidade e a complexidade humanas. O humano do humano O
homem é um ser a um só tempo plenamente biológico e plenamente
cultural, que traz em si a unidualidade originária. É super e
hipervivente: desenvolveu de modo surpreendente as potencialidades da
vida. Exprime de maneira hipertrofiada as qualidades egocêntricas e
altruístas do indivíduo, alcança paroxismos de vida em êxtases e na
embriagues, ferve de ardores orgiásticos e orgásmicos e é nessa
hipervitalidade que o "Homo Sapiens" é também "Homo Demens". O homem e o humano se encontram anelados a três circuitos fundamentais para sua vida enquanto ser e enquanto pessoa: - o circuito cérebro/mente/cultura; - o circuito razão/afeto/pulsão; e - o circuito indivíduo/sociedade/espécie. Todo
desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento
conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e
do sentimento de pertencer à espécie humana. "Unitas multiplex": unidade e diversidade humana Há
uma unidade humana; e há uma diversidade humana. A unidade não está
apenas nos traços biológicos da espécie; a diversidade não está apenas
nos traços psicológicos, culturais e sociais. Existem outras unidade e
diversidades perfilhando as características do ser humano em "ser
humano". Cabe
à educação do futuro cuidar para que a idéia de unidade da espécie
humana não apague a idéia de diversidade e que a diversidade não apague
a unidade. A educação deverá ilustrar este princípio de
unidade/diversidade em todas as esferas do conhecimento.
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