| Octávio Ianni |
| Por Conteúdoescola | |
| 23 de julho de 2004 | |
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Octávio Ianni foi, talvez, o último representante de uma nobre extirpe: a dos cientistas sociais que não mudam de lado ou de idéia ao sabor dos ventos da conveniência pessoal ou da política partidária. Seu
passamento no último 4 de abril deixou uma lacuna irreparável no campo
da ética e do pensamento científico desengajado de interesses
particulares.
Seguiu e ampliou a linha de trabalho dos precursores Sergio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, Visão do Paraíso, Cobra de Vidro, História Geral da Civilização Brasileira), Fernando de Azevedo (A Educação e seus Problemas, Princípios de Sociologia, a Cultura Brasileira) e Caio Prado Jr. (Evolução Política do Brasil, Formação do Brasil Contemporâneo, A Revolução Brasileira). A
questão racial, problemas de desenvolvimento e a globalização foram
temas de atenção do pesquisador e mestre. Seu mestrado, de 1956, sobre
a condição do negro no Sul do Brasil, foi publicada em 1960 como "Cor e
Mobilidade Social em Florianópolis. E seu doutorado, "O Negro na
Sociedade de Castas" (editada em livro em 1962, como "As Metamorfoses
do Escravo") foi a primeira abordagem sobre a discriminação racial no
Brasil vinculada à condição social desfavorável da população negra.
Ianni reforçou essa tese em "Raças e Classes Sociais do Brasil". Aposentado em 1969, Ianni transferiu-se para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP onde continuou suas atividades de professor e crítico da sociedade brasileira. Trabalhou também na UNICAMP – Universidade de Campinas, até poucos dias antes de sua morte. Fundou, juntamente com Fernando Henrique Cardoso e Paul Singer, entre outros intelectuais, o CEBRAP – Centro Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, do qual se desligou posteriormente, rompido com FHC ("e suas correções de rumo"). Otávio Ianni foi reconduzido à USP, em 1998, com o título de Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Marxista de formação e defensor incansável da universidade pública, era contrário às propostas de privatização do ensino superior, ensaiadas no governo de Fernando Henrique Cardoso, por considerar que tal fato espelharia os interesses multinacionais, não trazendo nenhum benefício à educação, pesquisa e cultura brasileiras, senão o contrário. Acreditava ser a implantação da ALCA – Área de Livre Comércio das Américas (defendida ferozmente pelos Estados Unidos e por todos os que colocam seus interesses empresariais particulares acima do bem público) - mais uma tentativa dos norte-americanos em manter (e ampliar) sua hegemonia política e econômica sobre a América Latina. Crítico do modelo de globalização que vem sendo levado a cabo sob o patrocínio dos Estados Unidos, dizia ser esse processo extremamente injusto e que só conseguiu aumentar as desigualdades entre ricos e pobres, contribuindo, assim, para a expansão da miséria e nutrindo o surgimento de outros problemas gravíssimos, como o terrorismo. Em "Teorias da Globalização", investiga os efeitos desse fenômeno, destacando suas conseqüências desvantajosas para a grande maioria dos envolvidos. Em
"Sociedade Global", trata da influência da cultura na formação da
identidade social, elevando o papel dos bens culturais a um posto
privilegiado dentro da sociologia. Florestan Fernandes, com o qual trabalhou na USP, dizia formar verdadeiros tigres e não assistentes na Sociologia I. Permitimo-nos a aleivosia de corrigir o mestre: tigres, sim, no campo da ética e da ciência, como Ianni (saudoso professor no curso de Métodos e Técnicas de Pesquisa Social) e pelo menos uma raposa, a que continua à solta, após 8 anos de mandato e à procura de um novo galinheiro para predar. Pesquisador e escritor incansável, as principais obras de Otávio Ianni são: Cor e Mobilidade Social em Florianópolis (em colaboração), 1960. Homem e Sociedade (coletânea de textos, em colaboração), 1961. Metamorfoses do Escravo (1962). Industrialização e Desenvolvimento Social no Brasil (1963). Política e Revolução Social no Brasil (1965). Estado e Capitalismo no Brasil (1965). O Colapso do Populismo no Brasil (1968). A Formação do Estado Populista na América Latina (1975). Imperialismo e Cultura (1976). Escravidão e Racismo (1978(. A Ditadura do Grande Capital (1981). Revolução e Cultura (1983). Classe e Nação (1986). Dialética e Capitalismo (1987). O Saber Militante (em colaboração, 1987). Sociologia da Sociologia (1989). Ensaios de Sociologia da Cultura (1991). Florestan Fernandes (1991). A Sociedade Global (1992). O Labirinto Latino-americano (1993). A Era do Globalismo (1996). A Idéia de Brasil Moderno (1996). Estado e Planejamento Econômico no Brasil (1996). Enigmas da Modernidade-Mundo (2000). Teorias da Globalização (2000). Desafios da Globalização (2002). Estados Unidos – A Supremacia Contestada (em colaboração, 2003). Capitalismo, Violência e Terrorismo (2004). |