A EDUCAÇÃO NA ERA DA INSEGURANÇA*

PUBLICADO POR CONTEUDOESCOLA - AUTORIA FRANCISCO VALENTE EM 21/04/2006 ÀS 09H37

HARGREAVES FAZ UMA CRÍTICA SEVERA ÀS CONDIÇÕES SOCIAIS E DE TRABALHO IMPOSTAS À POPULAÇÃO PELO CAPITALISMO SELVAGEM QUE CARACTERIZOU A INDUSTRIALIZAÇÃO EUROPÉIA NOS SÉCULOS 18 E 19 E, POR CONSEQÜÊNCIA, CRITICA TAMBÉM O MODELO CAPITALISTA ATUAL, MARCADO PELOS APELOS QUE FAZ AO CONSUMISMO DESENFREADO UTILIZANDO PARA ISSO, A MÍDIA E A TELEMÁTICA.


INTRODUÇÃO

VIVEMOS NUMA SOCIEDADE DINÂMICA. A PARTIR DESTA CONSTATAÇÃO, ANDY HARGREAVES, NESTE TEXTO, EXAMINA O SIGNIFICADO DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO, SUA IMPORTÂNCIA E SEU SENTIDO PARA OS PROFESSORES DE HOJE.
SÃO ALGUNS DE SEUS QUESTIONAMENTOS: COMO ENSINAMOS OS JOVENS A TRABALHAR E PROSPERAR A PARTIR DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO? COMO OS PROTEGEMOS (AOS JOVENS) CONTRA O RITMO FRENÉTICO DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E SEUS EFEITOS DESCONTROLADOS? 
AS SOCIEDADES DO CONHECIMENTO NECESSITAM DAS ESCOLAS PARA TORNAR-SE SOCIEDADES APRENDENTES CRIATIVAS E SOLIDÁRIAS E O AUTOR APRESENTA ALGUNS EXEMPLOS QUE SERVEM DE INSPIRAÇÃO PARA ISSO.
AS ESCOLAS DE HOJE DEVEM SERVIR E MOLDAR UM MUNDO NO QUAL PODE HAVER GRANDES OPORTUNIDADES DE MELHORIAS ECONÔMICAS SE AS PESSOAS PUDEREM APRENDER A TRABALHAR DE FORMA MAIS FLEXÍVEL, INVESTIR EM SUA SEGURANÇA FINANCEIRA FUTURA, RECICLAR SUAS HABILIDADES, IR REENCONTRANDO SEU LUGAR ENQUANTO A ECONOMIA SE TRANSFORMA AO SEU REDOR E VALORIZAR O TRABALHO CRIATIVO E COOPERATIVO.

AS NOÇÕES DE SOCIEDADE APRENDENTE/ORGANIZAÇÃO APRENDENTE JÁ FORAM ABORDADAS POR HARGREAVES EM LIVRO ANTERIOR, ESCRITO EM PARCERIA COM MICHAEL FULLAN1 .
NESSE LIVRO, FALA EM ESCOLA TOTAL E PROFESSOR TOTAL, AMBIENTE E PROFISSIONAL VOLTADOS PARA A CULTURA COOPERATIVA, ONDE A INTERDEPENDÊNCIA FORMA O CERNE DAS RELAÇÕES ENTRE PROFESSORES, FAZENDO COM QUE CADA UM SE SINTA PARTE DO GRUPO E DE UM TRABALHO EM EQUIPE. NESSE TEXTO, AINDA, DÁ COMO EXEMPLO DE "ESCOLA APRENDENTE" AQUELA FOCADA EM NOVOS RESULTADOS, VOLTADA MENOS AO ENSINO TRADICIONAL E MAIS EM TERMOS DO ENSINO PARA A COMPREENSÃO E DESEMPENHO NUM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO. CERTAMENTE, UM MUNDO ONDE A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO TORNA-SE UMA VERDADEIRA SOCIEDADE DE APRENDIZAGEM.


CAPÍTULO 1. O ENSINO PARA A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: EDUCAR PARA A INVENTIVIDADE.

HARGREAVES AFIRMA QUE A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO PROCESSA INFORMAÇÃO DE FORMA A MAXIMIZAR A APRENDIZAGEM, ESTIMULAR A CRIATIVIDADE E A INVENTIVIDADE, DESENVOLVER A CAPACIDADE DE DESENCADEAR AS TRANSFORMAÇÕES E ENFRENTÁ-LAS. 

"ENSINAR É UMA PROFISSÃO PARADOXAL. ENTRE TODOS OS TRABALHOS QUE SÃO, OU ASPIRAM A SER PROFISSÕES, APENAS DO ENSINO SE ESPERA QUE GERE HABILIDADES E AS CAPACIDADES HUMANAS QUE POSSIBILITARÃO A INDIVÍDUOS E ORGANIZAÇÕES SOBREVIVER E TER ÊXITO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO NOS DIAS DE HOJE. DOS PROFESSORES, MAIS DO QUE QUALQUER OUTRA PESSOA, ESPERA-SE QUE CONSTRUAM COMUNIDADES DE APRENDIZAGEM, CRIEM A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DESENVOLVAM CAPACIDADES PARA INOVAÇÃO, FLEXIBILIDADE E O COMPROMISSO COM A TRANSFORMAÇÃO, ESSENCIAIS À PROSPERIDADE ECONÔMICA. AO MESMO TEMPO, OS PROFESSORES DEVEM TAMBÉM MITIGAR E COMBATER MUITOS DOS IMENSOS PROBLEMAS CRIADOS PELAS SOCIEDADES DO CONHECIMENTO, TAIS COMO O CONSUMISMO EXCESSIVO, A PERDA DA NOÇÃO DE COMUNIDADE E O DISTANCIAMENTO CRESCENTE ENTRE RICOS E POBRES. NO ATINGIMENTO DESSES OBJETIVOS SIMÉTRICOS RESIDE SEU PARADOXO PROFISSIONAL. A EDUCAÇÃO – E CONSEQUENTEMENTE, ESCOLA E PROFESSORES - DEVE ESTAR A SERVIÇO DA CRIATIVIDADE E DA INVENTIVIDADE.


CAPÍTULO 2. O ENSINO PARA ALÉM DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: DO VALOR DO DINHEIRO AOS VALORES DO BEM.

TRATA DOS CUSTOS DA ECONOMIA DO CONHECIMENTO, ISTO É, DE UM BEM PÚBLICO DO QUAL ELA NÃO TEM CAPACIDADE DE TOMAR CONTA. A ECONOMIA DO CONHECIMENTO LEVA AS PESSOAS A COLOCAREM O INTERESSE PRÓPRIO ANTES DO BEM SOCIAL, A SE ENTREGARAM AO CONSUMO EM VEZ DE SE ENVOLVER COM A COMUNIDADE, A DESFRUTAR DO TRABALHO TEMPORÁRIO EM EQUIPE MAIS DO QUE DESENVOLVER AS EMOÇÕES DE LONGO PRAZO DA LEALDADE E PERSEVERANÇA QUE SUSTENTAM OS COMPROMISSOS DURADOUROS DA VIDA COLETIVA. A ECONOMIA DO CONHECIMENTO É NECESSARIAMENTE SEDENTA DE LUCROS. DEIXADA POR CONTA PRÓPRIA, DRENA OS RECURSOS DO ESTADO, CAUSANDO A EROSÃO DAS INSTITUIÇÕES DA VIDA PÚBLICA, INCLUINDO ATÉ MESMO AS ESCOLAS. EM SUA EXPRESSÃO MAIS RADICAL (O FUNDAMENTALISMO DE MERCADO), A ECONOMIA DO CONHECIMENTO ABRE FENDAS ENTRE RICOS E POBRES, NO INTERIOR DAS NAÇÕES E ENTRE ELAS, CRIANDO RAIVA E DESESPERO ENTRE OS EXCLUÍDOS.

CAPÍTULO 3. O ENSINO APESAR DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO I: O FIM DA INVENTIVIDADE.
(COM MICHAEL BAKER E MARTHA FOOTE)

CAPÍTULO 4. O ENSINO APESAR DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO II: A PERDA DA INTEGRIDADE.
(COM SHAWN MOORE E DEAN FINK)

OS CAPÍTULOS 3 E 4 (I E II) PROCURAM DEMONSTRAR QUE OS IMPERATIVOS FUNDAMENTAIS DA REFORMA DA EDUCAÇÃO NÃO ESTÃO PREPARANDO AS PESSOAS PARA A ECONOMIA DO CONHECIMENTO NEM PARA A VIDA PÚBLICA ALÉM DELA.
VALE-SE, PARA ISSO, DE EVIDÊNCIAS ORIUNDAS DOS ESTADOS DE NOVA YORK, NOS ESTADOS UNIDOS, E DE ONTÁRIO, NO CANADÁ.
APRESENTAM DADOS DE PESQUISAS E ENTREVISTAS FEITAS EM ESCOLAS DE NÍVEL MÉDIO DEMONSTRANDO QUE OS PADRÕES CURRICULARES DEGENERARAM PARA UMA PADRONIZAÇÃO INSENSÍVEL. NAS ESCOLAS COM DESEMPENHO MAIS ELEVADO ISSO MOSTROU-SE IRRELEVANTE; PORÉM, NAS ESCOLAS QUE TÊM GRANDES QUANTIDADES DE ALUNOS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL OU PROFISSIONALIZANTE, NÍVEIS ELEVADOS NUNCA SÃO ATINGÍVEIS. EM LUGAR DE GRADUAÇÃO, OS ALUNOS RECEBEM DEGRADAÇÃO E SEUS PROFESSORES SÃO LANÇADOS EM ESPETÁCULOS DE FRACASSO E VERGONHA, ERGUENDO DIQUES DE FRUSTRAÇÃO QUE CERTAMENTE EXPLODIRÃO QUANDO IMENSAS QUANTIDADES DE ALUNOS NÃO CONSEGUIREM SE FORMAR.

"A REFORMA EDUCACIONAL PADRONIZADA (ISTO É, QUE NÃO LEVA EM CONTA AS PECULIARIDADES, NECESSIDADES E EXPECTATIVAS DA CLIENTELA ESCOLAR) TEM TANTO VALOR PARA UMA ECONOMIA DO CONHECIMENTO VIGOROSA EM UMA SOCIEDADE CIVIL FORTE QUANTO GAFANHOTOS PARA UMA PLANTAÇÃO DE MILHO".

CAPÍTULO 5. A ESCOLA DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: UMA ENTIDADE EM EXTINÇÃO.
(COM CORRIE GILES)

TRATA DAS EXCEÇÕES. DESCREVE UMA ESCOLA QUE CONSEGUIU SE CONSTRUIR COMO ORGANIZAÇÃO DE APRENDIZAGEM E COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM PROFISSIONAL.
A ESCOLA PROMOVE EQUIPES NESSE SENTIDO, ENVOLVE A TODOS NO CONTEXTO GERAL DE SEUS RUMOS, UTILIZA A TECNOLOGIA PARA PROMOVER A APRENDIZAGEM PESSOAL E ORGANIZACIONAL, BASEIA AS DECISÕES EM DADOS COMPARTILHADOS E ENVOLVE OS PAIS NA DEFINIÇÃO DOS RUMOS DOS ESTUDANTES QUANDO ESTES DEIXAM A ESCOLA. É UMA COMUNIDADE DE CUIDADO E SOLIDARIEDADE, BEM COMO UMA COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM QUE DÁ À FAMÍLIA, AOS RELACIONAMENTOS E A UMA PREOCUPAÇÃO COSMOPOLITA COM OS OUTROS NO MUNDO. MAS ESSA ESCOLA DO DO CONHECIMENTO TAMBÉM SOFRE AMEAÇAS DE SER SUBMETIDA A REFORMAS-PADRÃO INSENSÍVEIS DE ENSINO.


CAPÍTULOS 6. PARA ALÉM DA PADRONIZAÇÃO: COMUNIDADES DE APRENDIZAGEM PROFISSIONAL OU SEITAS DE TREINAMENTO PARA O DESEMPENHO?

CAPÍTULO 7. O FUTURO DO ENSINO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO:REPENSAR O APRIMORAMENTO, ELIMINAR O EMPOBRECIMENTO.

OS CAPÍTULOS 6 E 7 BUSCAM UM CAMINHO PARA SAIR DESSE IMPASSE (APRENDIZAGEM PROFISSIONAL OU SEITAS DE TREINAMENTO PARA O DESEMPENHO?) O PRIMEIRO (6) ANALISA AS POLÍTICAS DE PAÍSES FORA DA AMÉRICA DO NORTE E DISTRITOS NO SUB-CONTINENTE QUE EXPERIMENTARAM ANOS DE PADRONIZAÇÃO E AGORA COMPREENDEM A URGÊNCIA DE IR ALÉM DELA, ESPECIALMENTE QUANTO ACONTECE UMA CRISE DE RECRUTAMENTO DE PROFESSORES E UMA NECESSIDADE DE ATRAIR E MANTER PESSOAS CAPAZES NA PROFISSÃO.
EM ALGUNS LOCAIS EXISTE AUTONOMIA, FLEXIBILIDADE E COMUNIDADE PROFISSIONAL PARA PROFESSORES QUE TÊM BOM DESEMPENHO. TODAVIA, ESCOLAS EM COMUNIDADES E EM PAÍSES MAIS POBRES ESTÃO SENDO SUJEITADAS A INTERVENÇÕES TENDENDO À PADRONIZAÇÃO, PRINCIPALMENTE NAS ÁREAS DE ALFABETIZAÇÃO E ARITMÉTICA, ASSUMINDO A FORMA DO QUE O AUTOR DENOMINA "SEITAS DE TREINAMENTO PARA O DESEMPENHO" E QUE OFERECEM APOIO INTENSIVO AO ENSINO SOMENTE EM ASPECTOS CONSIDERADOS "BÁSICOS'' DO CURRÍCULO. A TENDÊNCIA, ASSIM, EXPÕE HARGREAVES, É TERMOS CADA VEZ MAIS UMA DIVISÃO ENTRE RICOS E POBRES, AQUELES COM ACESSO A UM ENSINO DIFERENCIADO, COM MAIS RECURSOS DE TODA ORDEM E ESTES (OS POBRES) SUJEITADOS A UMA ESCOLA COM ESTRUTURA CURRICULAR PADRONIZADA E NÃO ATENDENTE ÀS PECULIARIDADES, NECESSIDADES E EXPECTATIVAS DA CLIENTELA.

O CAPÍTULO 7. SE POSICIONA CONTRA O "APARTHEID " (APARTAMENTO) DO DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL E DO APRIMORAMENTO DAS ESCOLAS, QUESTIONANDO UM MUNDO E UM SISTEMA EDUCACIONAL QUE DIVIDEM AQUELES QUE APRENDEM COMO CRIAR UMA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO ALTAMENTE ESPECIALIZADA DAQUELES QUE APENAS APRENDEM COMO SERVI-LA, POR MEIO DE TAREFAS DE NÍVEL INFERIOR NAS INDÚSTRIAS DE CONSUMO E HOSPITALIDADE. 

CONCLUSÃO

COMO CONCLUSÃO, HARGREAVES PRECONIZA, COMO TAREFA ESSENCIAL, REDESENHAR A MELHORIA ESCOLAR A PARTIR DE LINHAS DE DESENVOLVIMENTO, DE FORMA A FAZER COM QUE A COMUNIDADE PROFISSIONAL ESTEJA DISPONÍVEL A TODOS, E POR FIM AO EMPOBRECIMENTO EDUCACIONAL E SOCIAL QUE PREJUDICA QUALQUER CAPACIDADE DE AVANÇO QUE MUITAS NAÇÕES E COMUNIDADES POSSAM TER. 
DIZ AINDA QUE A BUSCA DA MELHORIA NÃO CONSTITUI UM SUBSTITUTO PARA O FIM DA POBREZA, E AMBAS TÊM DE SER CONDUZIDAS CONJUNTAMENTE. ESSA DEVERIA SER UMA DAS MISSÕES SOCIAIS E PROFISSIONAIS FUNDAMENTAIS DA REFORMA EDUCACIONAL NO SÉCULO XXI, UM DE SEUS GRANDES PROJETOS DE INVENTIVIDADE SOCIAL.
 

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*ANDY HARGREAVES - O ENSINO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: A EDUCAÇÃO NA ERA DA INSEGURANÇA - (2004) PORTO ALEGRE (RS): ARTMED EDITORA.

1 FULLAN, MICHAEL/HARGREAVES, ANDY (2000) A ESCOLA COMO ORGANIZAÇÃO APRENDENTE (BUSCANDO UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE), PORTO ALEGRE:ARTMED EDITORA.